A aldeia avieira das Caneiras, no concelho de Santarém, foi um dos locais mais afetados pelas cheias do Tejo que inundaram a Lezíria na última semana. Com o caudal do rio a voltar a acomodar-se entre margens, os moradores começam agora a regressar a casa para ver em que estado ficaram os lares que se viram forçados a abandonar.
Daniel Filipe, presidente da Associação Amigos das Caneiras, conta ao NS que houve muitos danos na aldeia, com várias casas a ficarem completamente inundadas, especialmente as que se encontram mesmo na orla do rio.
As ruas estão quase tão lamacentas como o interior de muitas casas. Embora já se consiga aceder de carro a aldeia, o acesso ainda é feito por cima do dique, já que a estrada das Ómnias ainda se encontra inundada.
Pelas ruas da aldeia espalham-se os indícios de que os moradores regressaram. As mobílias estragadas vão enchendo os contentores do lixo e o que se conseguiu salvar da força da água vai enxugando nos quintais. Embora a população estivesse habituada a estes fenómenos que eram regulares até finais do século XX, hoje em dia, Emídio Pelarigo explica ao NS que hoje em dia a maioria das pessoas já não esperava uma cheia desta envergadura e critica o pouco tempo de antecedência com que foram informados que a água ia entrar na aldeia.
Enquanto empurra a lama para fora de casa com a ajuda de uma mangueira, Ana Pelarigo, moradora na aldeia toda a sua vida, conta ao NS que a última cheia de que tem recordação que levou água àquele mesmo chão foi em 2013, mas que ainda assim não foi tanta.
“Desta vez a água entrou duas vezes”, relembra. “Quando fomos evacuados da aldeia a água entrou. Passados uns dias desceu e quando voltou a subir tinha aqui mais água que em 2013”, explica a moradora. No sábado, 14 de fevereiro tinha visitado a casa que ainda estava cheia de água e só na segunda-feira, 16, teve autorização para regressar e incetar as limpezas de que o seu lar tanto precisa.
Algumas casas ao lado, Conceição e o marido vão devolvendo ao rio a lama que o Tejo deixou no seu logradouro. A entrada para casa está escorregadia com tanta lama acumulada. “Tenha cuidado para não escorregar” alertou a proprietária ao jornalista do NS. Conceição mora na cidade e a casa das Caneiras é onde passa os fins de semana e as férias com o companheiro.
“Conseguimos levantar alguns eletrodomésticos da cozinha e alguns móveis. Mas mesmo assim a água deixou muitos estragos”, lamenta. Embora os armários da pequena cozinha exterior estejam em cima de blocos de cimento, não foi o suficiente para os manter secos e as marcas da água atingem pelo menos a metade da altura. No chão da cozinha não se distinguem os azulejos, é apenas visível a lama. O pátio exterior é igual.
Conceição explica que foram informados apenas cerca de sete horas antes que teriam que retirar o que pudessem de casa porque as águas iam invadir a aldeia. Conta que se apressou a sair do trabalho e a acorrer para a pequena aldeia na berma do Tejo para tentar salvar o que conseguisse. Ainda retirou o frigorífico o fogão e alguns móveis, mas muito acabou por ficar para trás.
É proprietária daquela casa há pouco mais de quatro anos e nunca tinha passado por esta situação. O marido, João, relembra que já chegou a ter a água onde agora se situa, numas escadas que dão acesso à margem do rio, quando esta não está inundada, mas que não esperavam que água subisse tanto.
“Fomos vendo as informações quase em tempo real da subida do caudal. Ficámos surpreendidos quando vimos o comunicado da Câmara Municipal a informar que iriam evacuar a aldeia”, relembra. “Foi quando saímos do trabalho e viemos para cá”.
Câmara vai começar limpezas imediatamente e garante apoios para os estragos
O presidente da Câmara de Santarém, João Leite, visitou a aldeia pela manhã de segunda-feira, 16 de fevereiro e, segundo revelou ao NS o presidente da Associação Amigos das Caneiras, Daniel Filipe, que acompanhou a visita, o autarca deixou garantias que as limpezas da lama e dos detritos que se espalham pela aldeia vai começar com muita brevidade. Daniel Filipe afirmou ainda que João Leite deixou promessas de que a autarquia vai abrir uma linha de apoios para os moradores que ficaram com as casas danificadas pela água do Tejo.










































