O futuro do rio Sorraia esteve ontem, quinta-feira, em debate no Observatório do Sobreiro e da Cortiça, em Coruche, nas primeiras Jornadas TRAP, uma iniciativa integrada no projeto europeu TRAP, Libertando os Nossos Rios de Plásticos, que pretende contribuir para um rio mais vivo, mais limpo e mais preparado para responder aos desafios ambientais que afetam o território.
Sob o tema “Reimaginar o Rio, as Cheias do Sorraia e os Caminhos do Plástico”, o encontro juntou investigadores, decisores, entidades públicas, associações locais e cidadãos, num espaço de reflexão sobre a relação entre o rio e a comunidade. Embora as cheias do inverno de 2025 e 2026 tenham marcado grande parte das intervenções, o objetivo central do projeto passa por olhar para o Sorraia como um património natural que importa proteger, valorizar e aproximar das populações.
O TRAP tem como missão estudar a presença e o percurso dos plásticos nos rios, desenvolver ferramentas de monitorização e testar soluções que permitam reduzir a poluição aquática. Em Coruche, o Sorraia foi escolhido como território piloto, permitindo combinar observação científica, tecnologia, participação cidadã e conhecimento local para encontrar respostas adaptadas à realidade do vale.
Na abertura das jornadas, o presidente da Câmara Municipal de Coruche, Nuno Azevedo, destacou que a escolha do Sorraia “reconhece não apenas as características ambientais do nosso rio, mas também o trabalho que temos vindo a desenvolver em parceria com instituições científicas e entidades especializadas”, reforçando “o papel de Coruche como território de inovação ambiental e de experimentação de soluções para os desafios do futuro”.
O autarca sublinhou ainda que a proteção do rio não depende apenas da ciência ou da tecnologia. “Nenhum projeto, por mais inovador que seja, conseguirá produzir mudanças duradouras sem o envolvimento das pessoas”, afirmou, defendendo que a preservação dos rios depende também “da forma como cada comunidade se relaciona com o seu território”. Para o presidente da Câmara, “reimaginar o rio significa olhar para ele não apenas pelos desafios que enfrenta, mas também pelas oportunidades que oferece”.
Ao longo da tarde, ficou claro que o projeto pretende ir além do diagnóstico dos problemas. A ambição passa por construir uma nova relação com o Sorraia, tornando o rio mais valorizado, mais protegido da poluição e mais presente na vida das comunidades ribeirinhas. A remoção dos plásticos, a identificação dos pontos de acumulação de resíduos, a melhoria da monitorização das cheias e o reforço da consciência ambiental foram algumas das prioridades apontadas.
Rui Ferreira, do Instituto Superior Técnico, responsável pela componente de observação científica do projeto em Portugal, explicou que o TRAP assenta em três pilares fundamentais, “ciência, tecnologia e comunidades”. Segundo o investigador, “todos os rios transportam plásticos”, desde microplásticos a resíduos de maiores dimensões, pelo que o conhecimento sobre a forma como esses materiais se deslocam e se acumulam é essencial para definir soluções eficazes.
O responsável destacou também que o envolvimento local será decisivo para o sucesso do projeto. “Podemos ter a melhor física, o melhor conhecimento, as melhores ferramentas. Se não houver o envolvimento das comunidades, não vamos ter soluções sustentáveis”, afirmou, defendendo que os cidadãos conhecem o território de uma forma que a ciência só consegue completar com a sua colaboração.
As cheias recentes serviram de exemplo da necessidade de conhecer melhor o comportamento do Sorraia. Durante esse período, a equipa acompanhou o rio, recolheu dados, registou manchas de inundação e contou com fotografias e informações partilhadas por habitantes locais. Esse trabalho permitirá melhorar modelos de previsão, perceber melhor os caudais e identificar locais onde os plásticos tendem a ficar retidos ou a ser arrastados para jusante.
O projeto prevê ainda o desenvolvimento de ferramentas digitais de ciência cidadã, através das quais a população poderá ajudar a sinalizar resíduos, níveis de água e outras ocorrências relevantes. A ideia é transformar a comunidade num parceiro ativo da proteção do Sorraia, criando uma rede de “guardiões do rio” capaz de prolongar os efeitos do projeto para além da sua duração formal.
As Jornadas TRAP contaram com dois painéis de debate. O primeiro, dedicado ao tema “O rio e a sua comunidade”, reuniu representantes do IPMA, da Agência Portuguesa do Ambiente, da Câmara Municipal de Coruche e da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia. O segundo, intitulado “A comunidade e o seu rio”, contou com a participação da Administração da Região Hidrográfica do Tejo e Oeste, do Museu Municipal de Coruche, da Ecolezíria e de entidades locais ligadas ao território.





