O grupo Luz Saúde vai criar o Hospital da Luz Ribatejo em Santarém. As obras foram adjudicadas em Abril e prevê-se que estejam concluídas perto do final de 2025, com o Hospital a abrir portas durante a primeira metade de 2026.
O NS foi conversar com Pedro Patrício, impulsionador do Hospital da Luz Ribatejo. O gestor do grupo Luz Saúde explicou que o investimento de 58 milhões de euros deveu-se à procura dos serviços do Hospital da Luz por vários utentes do distrito e a escolha recaiu em Santarém por ser uma capital de distrito com muito potencial.
O Hospital da Luz Ribatejo vai criar cerca de 500 postos de trabalho e segundo Pedro Patrício vai obrigar Santarém a dar um salto evolutivo, especialmente no que diz respeito ao mercado imobiliário e ao ensino superior.
Pedro Patrício abordou também a necessidade do Serviço Nacional de Saúde aproveitar os privados para se “desenvolver como um todo”, incluindo os serviços prestado no setor privado para dar uma melhor resposta às necessidades dos utentes.
NS – O presidente da Câmara de Santarém já referiu várias vezes Santarém como um futuro “cluster da saúde”. É no seguimento dessa ideia que o grupo Luz Saúde vai abrir uma unidade em Santarém?
PP – O Hospital da Luz decidiu investir 58 milhões em Santarém por duas grandes razões. A primeira porque já temos muitos clientes de Santarém nos nossos hospitais de Lisboa. Faz todo o sentido numa lógica de medicina de proximidade. Está mais perto das próprias pessoas.
Mas depois porque sabemos que Santarém é uma cidade que está a crescer muito em termos demográficos, e industriais e, portanto, acreditamos no desenvolvimento de Santarém como um polo importante do ponto de vista de saúde Ter a localização geográfica perto de Lisboa é importante por causa dos recursos humanos, sejam eles diferenciados clinicamente ou não. Sejam eles médicos, enfermeiros, técnicos de saúde ou outro pessoal, não afeto a área clínica.
Santarém, de facto vai ser das capitais de distrito com mais oferta de saúde. Temos um hospital distrital com 400 camas, temos o Hospital da CUF com 20 e poucas camas, temos muitas unidades privadas pequenas. Também temos as Unidades de Saúde Familiar a trabalhar bem e vamos ter o Hospital da Luz, que a seguir ao nosso Hospital de Lisboa e Porto vai ser o maior hospital do país.
NS – Que serviços é que a Hospital da Luz vai disponibilizar nas futuras instalações de Santarém?
PP – Vamos ter praticamente todas as valências. Vamos ter a área ambulatória, com todas as áreas de consultas. Vamos ter a área cirúrgica, com quatro salas de bloco operatório. Vamos ter a área toda de internamento para áreas médicas e cirúrgicas com 50 camas. Vamos ter cuidados intermédios, que é uma coisa muito importante, e que nos permite ter ter uma maior complexidade de doença, sejam elas doença do ponto de vista médico, ou sejam elas cirurgias. Portanto, vamos ter as especialidades todas e vamos estar ligados ao Hospital da Luz, Lisboa, para duas grandes áreas: A área oncológica em que o cancro vai ser tratado em Santarém, a radioterapia vai ser feita em Lisboa. E os partos: nós vamos fazer toda a área da ginecologia obstetrícia em Santarém. Os partos são feitos em Lisboa, onde já é a maior maternidade do país. Depois a mãe e a criança já nascida regressam a Santarém para fazer o acompanhamento da pediatria. Vai ser um hospital de de média dimensão com uma complexidade já considerável.
NS – Quantos postos de trabalho é que vai criar?
PP – Vamos criar 500 postos de trabalho, mas acreditamos que um hospital desta dimensão vai trazer muito mais. Sobretudo aquela zona do Retail Park vai se desenvolver bastante.
NS – O que é que pode trazer mais para a cidade de Santarém?
A parte imobiliária vai ter obrigatoriamente que se desenvolver, porque neste momento não há casas em Santarém. Sobretudo habitação acessível, digamos assim. O setor imobiliário vai ter que desenvolver muito, porque os enfermeiros vêm viver para Santarém, os médicos vão viver em Santarém.
A relação com as faculdades vai ser muito importante, sobretudo o Politécnico de Santarém e o ISLA que vão ser nossos parceiros porque têm cursos da área da saúde, como enfermagem, mas também a área não clínica, como a área de gestão, como a área de secretariado, etc. A cidade vai-se desenvolver ainda mais.
NS – O setor privado é concorrência ao SNS ou uma solução, se complementado, para o caos em que se encontra?
PP – Não, concorrência não é. Até porque neste momento o SNS paga mais aos profissionais até que os hospitais privados. Paga muito mais aos médicos e paga mais aos enfermeiros.
Agora eu acho que é complementar. Este Governo está a tentar novamente recuperar essa relação de complementaridade. Aquilo que não é feito ou que não consegue ser feito no SNS, tenta ser feito nas Misericórdias ou nos privados.
Isto é muito complicado. O SNS tem que se desenvolver cada vez mais como um todo. Com públicos e com privados. Porque hoje quem ganha com isso são os 10 milhões de portugueses que precisam de médicos de família ou precisam de tratamento do cancro, ou precisam de cirurgias e têm uma lista de espera de vários meses.
NS – Há em Portugal profissionais de saúde suficiente para dar resposta às necessidades da população?
PP – Claramente não. Por duas razões: primeiro, não abrem cursos suficientes em Portugal para para o desenvolvimento académico do que é preciso no nosso país, sobretudo médicos e enfermeiros.
Segundo, cada vez mais a nova geração quer trabalhar menos horas. Há 10 ou 15 anos atrás, contratava se um médico para trabalhar num determinado sítio e depois fazia horas, noutro hospital. Os enfermeiros também trabalhavam em dois sítios. Hoje em dia as novas gerações só querem trabalhar praticamente num sítio. Sobretudo aquela geração dos 30 aos 33 anos. O que é que isto faz? Faz com que haja muito mais oferta de número de horas de clínicas para Portugal. E cada vez há mais hospitais, cada vez há mais clínicas e portanto, não há gente para isto tudo. A solução passa por por as universidades abrirem mais cursos. Isso não há a menor dúvida. Mas se calhar também passa por Portugal ter a coragem de importar a mão de obra qualificada
NS – É contra ou a favor de as universidades privadas lecionarem cursos de medicina?
PP – Completamente a favor. Aliás, nós Luz Saúde, somos parceiros da Universidade Católica, e temos o nosso primeiro curso de Medicina no privado. Eles vão este ano entrar no terceiro ano, salvo erro. Completamente a favor, pois independentemente de ser público ou privado, nós temos é que ter mais médicos em Portugal.
NS – Quais são as principais falhas que vê no SNS?
PP – Eu acho que a grande falha passa muito por aquilo que tem sido combatido nos últimos anos, e bem, que é a falta de organização. Mas tem melhorado muito. Atenção, o SNS está muito melhor do que há cinco ou seis anos atrás. Há um SNS antes do COVID e depois do COVID.
Vou dar um exemplo: Um doente que seja operado no Hospital da Luz e tem marcado “faca a à pele” (que é o termo que usamos para o início da operação em si, ou seja, quando se faz o primeiro corte) às 08h05, organiza-se tudo, mede-se todos os timings para que isso aconteça: Entra no hospital às 06h45, às 07h25 está pronto para entrar no bloco operatório e às 07h45 está a ser levado para a mesa de operações. Faz-se cerca de 150 cirurgias por dia, tem que haver organização para funcionar.
No SNS a meio das cirurgias, o médico, que por acaso também está de urgência, tem que ir à urgência ver um doente. Depois, por acaso, tem que ir dar alta a um doente que está à espera, por exemplo. É uma questão de organização.





