Opinião – Sanna Marin e a desumanização

31 Agosto 2022, 16:46 Não Por Redacção

Fechado o ciclo da silly season, muitos foram os destaques da imprensa que podiam ser apenas isso… fruto da época, da pouca dinâmica informativa etc. mas sejamos sinceros e realistas, a divulgação de um vídeo privado da Primeira-Ministra finlandesa, Sanna Marin, a dançar com um grupo de amigos e a fazer o que qualquer uma ou um de nós fez neste “querido mês de agosto” não foi apenas um momento da “silly season”, foi mais um exemplo no nosso tempo do que já tem séculos de preconceito, estigma, estereótipo agravado pela turba que reina nas redes sociais e que para muitas mulheres é a nova fogueira da idade média e que é bem mais exigente para quem desempenha os mais elevados cargos públicos, a quem se exige sobretudo que seja tudo menos humano e esta ideia é reforçada, como um mandamento, se estivermos a falar de uma mulher. Afinal, era o que faltava ser ao mesmo tempo mulher, das governantes mais jovens da europa e que foi a primeira ministra mais jovem a ser eleita (aos 34 anos, tem agora 36), que foi escolhida para liderar uma coligação governamental de centro esquerda, num país reconhecido pelas suas políticas progressistas em matéria de género, que foi um exemplo reconhecido a nível mundial pelo sucesso da gestão da pandemia na Finlândia e que se posicionou pela entrada do país na NATO, após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia. Era realmente o que faltava ser tudo isto e …ter direito a conciliar a sua vida profissional e política com a sua vida familiar (é mãe) e a sua vida pessoal e privada, que inclui ter direito a dançar. Estranhamente, estamos a falar do mesmo país que em 1906 foi o primeiro a reconhecer plenos direitos políticos às mulheres, tenha tido em 2019 todos os partidos da coligação governamental liderado por mulheres e elogiado por Ursula Von Der Leyen, pelos avanços que protagonizou nas políticas paritárias.  Esta tentativa de fazer de uma noite de partilha de amizade uma histeria, foi um trunfo mediático usado pela oposição e alimentado pelas redes sociais um pouco por todo o mundo. Uns, defendem a líder finlandesa e outros atacam-na de forma vil, extremista… uma fogueira dos tempos modernos. O que nos deve fazer pensar.

Não tem um governante direito a usufruir de tempo pessoal e à reserva da vida privada se tal não representar uma violação da confiança depositada pela comunidade e pelos eleitores? Será que a desumanização é requisito para se poder governar? Ou queremos líderes que são no fim do dia pessoas como nós, com virtudes e defeitos, com tempo para trabalhar e para a vida pessoal, que merece reserva e cujas ações privadas são apenas normais e que não entram em contradição com o seu discurso e trabalho público? Que líderes queremos que nos representem? Sanna Marin, é para muitos jovens um exemplo de esperança e de progresso, entre os corredores do poder e os festivais que não deixou de acompanhar (oficialmente ou a título pessoal) no seu país. É, ela mesma, um exemplo de uma mulher, oriunda de uma família operária, com poucos recursos financeiros e de uma classe que não é a “do poder” e que reconhece “que as origens de cada um ainda afetam as possibilidades que temos na vida e isso não pode acontecer”. Acresce que Sanna Marin, é também ela mesma um exemplo do que Bell Hooks nos disse no seu livro teoria feminista, não basta alcançar os lugares que antes apenas eram um lugar de e para homens, é preciso fazer parte da chamada maioria silenciosa e ter impacto transformador na sociedade. A história demonstra que “muitas teorias feministas foram criadas por mulheres privilegiadas, que vivem no centro , cuja visão de realidade, raras vezes inclui o conhecimento e a consciência das vidas de mulheres e de homens que vivem na margem”.

Sanna Marin, é fruto do modelo igualitário nórdico e que, a meu ver, representa o que muitas gerações podem alcançar com um estado mais igualitário e que não se subtrai à tirania do mérito que Michael Sandel, no seu mais recente livro, exemplificou como o elevador social avariado num mundo refém de mercados, onde as oportunidades não são iguais para todos e onde o descontentamento populista encontrou novas raízes para crescer.

Um mundo menos humanizado choca-se com uma mulher que não deixou de ser uma pessoa, que zela pelo seu povo e pela democracia e que tal como nós tem direito a ser, sem colocar em causa a missão para qual foi eleita e que cumpre essa missão conciliando a vida pessoal e profissional, mas não se choca com aqueles que colocam em causa as bases da democracia e são tantos os exemplos por todo o mundo. Eu continuarei a preferir aqueles e aquelas cujos cargos não os desumanizaram. 

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