Opinião – “Outono à mesa”

30 Outubro 2022, 13:10 Não Por Redacção

Chegámos à estação do ano em que nos recolhemos e preparamos para o tempo de inverno, as festividades de final de ano e a renovação da primavera. No mês de outubro assinala-se a ligação entre a terra e a mesa com mostras da tradição gastronómica portuguesa pondo em evidência a importância da alimentação, atividade fundamental na economia da Lezíria e do Vale do Sorraia.

O ato de comer é, desde sempre, um ato social; comer e cooperar, seja por necessidade de sobrevivência, identidade cultural ou festividade;

A alimentação está na base da junção de pessoas, na instalação e arquitetura das aldeias, vilas e cidades. Assim acontece por cá, nas margens do rio Tejo e do afluente Sorraia, onde há água, solo de aluvião, sol e o saber das gentes que souberam proporcionar condições favoráveis às práticas agrícolas, em ordem aos ciclos das estações do ano e dar uso culinário, indissociável dos modos de vida, e que é por todos reconhecido.

É por isto que a agroindústria se aproximou e instalou e é por isto que se realiza em junho a ‘Feira Nacional da Agricultura’ (Feira do Ribatejo) vai para sessenta anos e em finais de outubro, o primeiro e único ‘Festival Nacional de Gastronomia’, em Santarém vai para mais de quarenta anos.

É difícil apontar uma fronteira administrativa da região, a identidade cultural prova, desde logo, na diversidade da terra e na mesa, o seu contrário; a região entende-se no Casario, na Lezíria e na Charneca, mais ao sul.  Também por aqui há marcas da típica gastronomia de outono, seja nas ‘Jornadas de Gastronomia’, dia de S. Martinho e Enoturismo ou a ‘Mostra Gastronómica da Caça’, em Mora (em finais de novembro).

Todos sabemos que os tempos recomendam prudência, reserva alimentar e economia de esforço devido à nova ordem de escassez mundial, aumento generalizado dos preços ou ainda porque os ritmos de vida acelerados alteraram os hábitos da mesa, para práticas mais simplificadas, sedentárias e menos saudáveis.

Entre a cultura da abundância (quando se trata de conviver à mesa em momentos de exaltação gastronómica como é o caso das festividades) e a necessidade generalizada de poupar, como em tudo na vida, impõe-se o bom senso.  Há espaço e oportunidade para todos, assim haja vontade, sendo certo que concordamos na proteção e nas recomendações da dieta mediterrânica.

Na equação há que considerar os novos movimentos migratórios, os imigrantes globais e a opção de vida dos ‘Novos Rurais’ a que corresponde a preocupação da proteção dos direitos humanos, o repovoamento de territórios agrícolas, o combate às desigualdades sociais e a procura de qualidade de vida, contrária aos movimentos das cidades. Há ainda a necessidade de valorizar a economia circular e há uma crescente comunidade de consumo de base vegetariana, seja por opção de consciência ou por questões de saúde.

A necessidade de assegurar a alimentação global e as alterações climáticas são exemplos das preocupações e desafios que temos. Somos convocados para estarmos atentos e conscientes do nível de desperdício que individualmente podemos controlar.

Mas exatamente por vivermos tempos difíceis, é tão importante a insistência na identidade territorial, para que não caia em esquecimento. A tradição gastronómica que recebemos e que podemos transmitir aos nossos filhos é disso um bom exemplo; pelo poder de sociabilidade e bem-estar, um valor tão português.  

Por isto, é bom irmos acompanhando o que se estuda, mediando e intervindo de forma construtiva sobre um tema tão apaixonante e essencial.

Com a certeza de um grande ‘viva a gastronomia portuguesa’!

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