A obesidade é uma das doenças crónicas mais prevalentes em Portugal. Nas últimas décadas, tornou-se uma questão de saúde pública, com múltiplos impactos, que exige uma resposta estruturada. Sónia Gonçalves, Coordenadora da Unidade de Obesidade do Hospital CUF Santarém, explica os benefícios de um acompanhamento diferenciado e multidisciplinar, garantindo que a obesidade não se resolve com conselhos isolados. Tratar esta doença é – muito mais do que controlar o peso – promover saúde.
Qual é a prevalência da obesidade em Portugal e como têm evoluído estes números, nos últimos anos?
A obesidade é uma das doenças crónicas mais prevalentes e mais desafiantes em Portugal. Atualmente, mais de metade da população adulta tem excesso de peso e cerca de 28% vive com obesidade. Estes números têm aumentado de forma consistente, nas últimas décadas. Estamos perante um desafio estrutural para o sistema de saúde, com impacto direto na esperança de vida, na qualidade de vida e associado a doenças cardiovasculares, diabetes e outras complicações. A obesidade deixou de ser um problema individual: é uma questão de saúde pública que exige organização, prioridade e estratégia nacional.
Que problemas de saúde estão mais frequentemente associados à obesidade?
A obesidade está associada a mais de 200 doenças. Entre as mais frequentes estão a diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, as alterações do colesterol, a doença cardiovascular, a apneia do sono e a patologia osteoarticular. Mas o impacto não se resume aos diagnósticos médicos. É um quadro que afeta a mobilidade, a energia, a qualidade do sono, a autoestima e a saúde mental. E que compromete a autonomia, o desempenho profissional e as relações familiares. Estamos a falar de anos de vida saudável perdidos e de risco acrescido de complicações graves.
Do ponto de vista clínico, a resposta deve ser multidisciplinar?
Sim, sem qualquer dúvida. A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, com mecanismos biológicos que dificultam a perda e a manutenção do peso. Não é uma questão de falta de força de vontade. A resposta deve ser estruturada, contínua e baseada em evidência científica.
Na Unidade de Obesidade do Hospital CUF Santarém trabalhamos com uma equipa diferenciada que integra Medicina Interna, Cirurgia Geral, Nutrição, Psicologia, Cardiologia e Pneumologia, envolvendo outras especialidades sempre que necessário. Existe uma articulação ativa entre áreas: quando outras especialidades identificam pessoas com obesidade, referenciam-nas para a Unidade. Este modelo traduz uma visão integrada da doença – a obesidade é assumida como prioridade clínica e integrada no acompanhamento do doente nas diversas especialidades. Acreditamos que, assim, estamos a contribuir para elevar o padrão de cuidados, a nível nacional.
Que tipo de abordagens terapêuticas podem ser propostas?
O tratamento é sempre personalizado. Pode incluir reorganização alimentar estruturada, atividade física adaptada, apoio psicológico, farmacoterapia específica para a obesidade e, quando clinicamente indicado, cirurgia bariátrica.
Importa esclarecer que os fármacos para a obesidade são terapêutica médica baseada em evidência científica robusta. Não são soluções rápidas, nem atalhos. Atuam sobre mecanismos hormonais e metabólicos que dificultam a perda e manutenção do peso. O objetivo não é apenas reduzir números na balança, mas melhorar saúde metabólica, funcionalidade, qualidade de vida e prevenir complicações futuras. Estamos a tratar uma doença crónica, com impacto sistémico.
A Unidade da Obesidade do Hospital CUF Santarém obteve a acreditação pela European Association for the Study of Obesity (EASO). O que representa este reconhecimento?
A acreditação pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade significa que a Unidade cumpre critérios europeus rigorosos de qualidade clínica, organização assistencial e diferenciação técnica. O Hospital CUF Santarém foi a primeira Unidade CUF a obter esta acreditação, um reconhecimento internacional do trabalho desenvolvido pela equipa. Para as pessoas com obesidade, isto traduz-se em segurança, acompanhamento estruturado e acesso a cuidados alinhados com as melhores práticas europeias.
Num contexto nacional onde a obesidade ainda é frequentemente subvalorizada, este reconhecimento contribui para elevar o nível de exigência e qualidade dos cuidados prestados.
Está a decorrer um estudo europeu sobre a obesidade, no qual o Hospital CUF Santarém e o Hospital CUF Descobertas vão participar. Em que consiste este estudo? Acredita que irá contribuir para o avanço do tratamento da obesidade?
O Institute for Healthcare Improvement (IHI), em parceria com a EASO, lançou uma Iniciativa Europeia de Melhoria dos Cuidados na Obesidade. O Hospital CUF Santarém e o Hospital CUF Descobertas foram duas das três unidades selecionadas para representar Portugal. O objetivo é reforçar a qualidade, a coordenação e a centralidade na pessoa dos cuidados prestados a quem vive com obesidade, através de metodologias estruturadas de melhoria contínua.
Esta participação permitirá otimizar o percurso dos doentes, desenvolver competências internas sustentáveis e integrar uma rede europeia de aprendizagem e partilha de boas práticas. Estamos a contribuir para que o tratamento da obesidade em Portugal evolua de forma estruturada, mensurável e alinhada com os padrões europeus mais exigentes.
CUF foi importante para Inês Narciso
Inês Narciso tem 42 anos e é de Santarém. Em 2022, quando o marido enfrentou uma doença oncológica, passou por um longo período de incertezas, desgaste emocional e físico, durante o qual a sua saúde acabou por ficar em segundo plano: “cansava-me, irritava-me com muita facilidade e o peso ia aumentando, mas eu desvalorizava, porque as prioridades eram a saúde do meu marido e a minha família”, explica.
Até que, em 2024, com apenas 40 anos, “senti uma enorme dor no peito e falta de ar, tinha a tensão arterial descontrolada e análises alteradas. Felizmente, acabou por ser falso alarme, mas eu sabia que não havia mais hipóteses. Tinha de cuidar de mim.”
Na sequência deste episódio, foi diagnosticada com obesidade, hipertensão arterial e problemas na vesícula biliar. “O meu estado de saúde era delicado e fazer cirurgia bariátrica era um risco, pelo que o cirurgião-geral Pedro Mesquita referenciou-me para a Consulta de Obesidade do Hospital CUF Santarém”, conta.
O seu plano terapêutico inclui alterações da alimentação e estilo de vida, farmacoterapia dirigida à obesidade e acompanhamento médico regular. Segundo Inês, “em apenas 1 ano, a minha saúde melhorou a olhos vistos: perdi 32kg, deixei a medicação para a tensão, apertar os atacadores deixou de ser difícil, passei a conseguir andar rápido e até correr, quase sem esforço, e ganhei autoestima e confiança”. E não esconde a satisfação: “Agradeço a toda a equipa da Unidade da Obesidade do Hospital CUF Santarém pelo excelente trabalho que têm feito comigo.”



