Nova CLAPA quer salvar o Alviela mudando mentalidades

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Da esquerda para a direita: Joana Corneliussen, Liliane de Medeiros e Penélope e Melo
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A Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela (CLAPA) quer deixar de ser vista apenas como uma associação que reage à poluição do rio Alviela para assumir um papel mais amplo na sensibilização ambiental. A nova direção defende que o trabalho deve passar, acima de tudo, pela educação, pela criação de pontes com a comunidade e por uma mudança de comportamentos que permita proteger o rio e o território envolvente.

A estratégia da associação é clara: em vez de se limitar à denúncia, pretende promover soluções, envolver entidades públicas e privadas e aproximar a população da causa ambiental. “Não somos uma direção de apontar o dedo. Nós somos uma direção de criar sinergias e soluções em conjunto”, sublinha Penélope de Melo, uma das responsáveis da CLAPA, ao explicar a filosofia que orienta este novo ciclo. Para a dirigente, o essencial é perceber o que acontece, por que acontece e encontrar caminhos que ajudem a evitar novas situações de degradação.

A associação, que este ano assinala 50 anos de existência, quer também renovar a sua imagem sem apagar a memória de uma luta antiga. Penélope de Melo recorda que a CLAPA “faz este ano 50 anos”, o que significa que existe “muita história” que não está disponível na internet, mas que vive na recordação das gentes ligadas ao rio e à freguesia. Essa herança, diz, foi decisiva para o grupo que agora lidera os destinos da coletividade, formado por pessoas vindas de diferentes pontos do país, unidas por uma ligação comum à natureza e ao ambiente.

“Viemos todas de outros sítios. Não nos conhecíamos antes. Mas fomos nos encontrar aqui a todos com enorme amor pelo ambiente”, explicou Penélope de Melo, frisando que a CLAPA conseguiu juntar uma equipa com novas ideias, mas também com vontade de respeitar o percurso já feito. A dirigente fala num “sangue novo” necessário para dar continuidade ao trabalho da associação e, ao mesmo tempo, ampliar a sua atuação.

A nova orientação da CLAPA parte de um princípio simples: a defesa do rio Alviela não pode ficar isolada numa leitura estreita da poluição. A associação entende que tudo o que acontece na bacia hidrográfica está ligado, direta ou indiretamente, ao estado ambiental do território. “A nossa primeira ideia e objetivo foi de facto extrapolar não só ao rio, mas a todo o ambiente em geral. Porque, de facto, se formos pensar, tudo vai dar ao rio”, afirma Penélope de Melo. A mensagem é reforçada por Liliane de Medeiros, que lembra que a proteção ambiental não se faz apenas com fiscalização, mas com responsabilidade quotidiana e mudança de hábitos.

Esse entendimento está na base das ações que a associação já começou a preparar. A CLAPA quer desenvolver iniciativas de sensibilização, atividades para famílias, ações pedagógicas e momentos de contacto direto com o território. A ideia é que a população não seja apenas observadora, mas interveniente. Daí a aposta em jornadas de voluntariado ambiental, caminhadas interpretativas, plantação de árvores e recolha de resíduos, sempre com forte componente educativa.

Uma das próximas iniciativas da associação será precisamente uma jornada de voluntariado ambiental, pensada como um percurso curto, acessível e familiar, que combine observação, convívio e aprendizagem. O programa inclui uma atividade com explicação sobre as espécies presentes no rio e a forma como elas podem ajudar a perceber a qualidade da água. “Vai ser um bocadinho uma ação de educação ambiental”, adianta Penélope de Melo, explicando que o percurso servirá também para mostrar às pessoas o valor do espaço natural e o que ali pode ser preservado.

A jornada incluirá ainda uma plantação de árvores na zona da várzea e um momento de recolha de lixo, embora a própria associação tenha sublinhado que, felizmente, os resíduos encontrados no terreno são reduzidos. A escolha do formato mostra bem o caminho que a CLAPA quer seguir: aproximar a comunidade da natureza através de experiências práticas, sem dramatizações, mas com consciência cívica. “A ideia não é uma caminhada para andar muito. É mais para aproveitarmos a natureza, conversarmos com as pessoas, percebermos a expectativa delas em relação a todo aquele espaço”, explicou a dirigente.

A educação ambiental surge, assim, como peça central da estratégia da associação. Liliane de Medeiros defende que a transformação precisa de ser persistente e não apenas pontual. “O que sentimos é que vai ter que passar por aí: esta educação ambiental, esta mudança de mentalidade”, afirmou. Para a responsável, o trabalho tem de ser feito “para os nossos filhos e para os nossos netos”, porque são as gerações futuras que irão usufruir dos resultados ou sofrer as consequências da inação.

A mesma ideia é partilhada por Joana Corneliussen, que considera que a mudança de mentalidade traz mais resultados do que o simples endurecimento da fiscalização. A dirigente lembra que muitas campanhas começam com entusiasmo, mas acabam por perder força se não houver continuidade. “As pessoas embarcam nessas campanhas, nessas mudanças e tudo mais, mas depois, ao fim de um tempo, o entusiasmo vem por aí abaixo”, observou. Para Joana Corneliussen, o desafio está precisamente em manter o tema vivo, repetir a mensagem e não desistir do trabalho de sensibilização.

Embora não desvalorize a importância da fiscalização, a CLAPA entende que a solução não pode depender apenas da aplicação de coimas. Liliane de Medeiros considera que as sanções, por si só, não resolvem o problema: a multa pode ser paga, mas a poluição já aconteceu. “O problema que a gente tem que ter, além da coima, é a responsabilidade que cada empresa tem que ter a não fazer isso”, alertou. A responsável defende, por isso, uma abordagem preventiva, assente na consciência ambiental e na adoção de práticas responsáveis por parte de empresas, instituições e particulares.

É nesse quadro que nasce também o projeto do selo de compromisso ambiental, uma iniciativa que a CLAPA quer lançar junto de entidades e comércio local. Liliane de Medeiros explicou que o objetivo é reconhecer quem demonstra preocupação real com o ambiente e incentivar práticas mais sustentáveis. Para obter esse selo, as entidades terão de assinar uma carta de compromisso e responder a um inquérito sobre gestão de resíduos, consumo de energia, uso de água e comportamentos ambientais. Depois, a associação analisará as respostas e atribuirá o nível de selo adequado.

A ideia, segundo a CLAPA, não é criar mais um mecanismo burocrático, mas estimular boas práticas e envolver o tecido local numa lógica de responsabilidade partilhada. A associação acredita que, se pequenas e grandes entidades aceitarem esse desafio, será mais fácil construir uma rede de proteção ambiental com efeitos reais. “Se a CLAPA consegue fazer coisas, como é que os outros não conseguem? Tudo é uma questão de vontade”, resumiu Penélope de Melo.

Essa vontade é também visível na forma como a associação se relaciona com outras instituições. A CLAPA tem procurado estabelecer contactos com entidades ligadas à gestão da água, à fiscalização e à administração local, procurando abrir canais de diálogo em vez de alimentar confrontos públicos. A direção insiste que não quer transformar a defesa do Alviela num palco de acusações. Pelo contrário, aposta numa linguagem de cooperação e negociação. “A nossa política vai ser sempre esta: não é a apontar dedos, a ir dizer mal para o Facebook que mudamos alguma coisa”, disse Penélope de Melo.

Ao mesmo tempo, a associação procura valorizar o território e potenciar o turismo sustentável. A zona do Mouchão, na leitura da CLAPA, tem potencial para ser mais do que um espaço degradado ou subaproveitado. Penélope de Melo considera que a área precisa de “outro carinho” e que pode vir a ser uma belíssima praia fluvial ou um ponto de interesse natural e patrimonial, desde que a intervenção respeite o equilíbrio ambiental. A dirigente defende um modelo de desenvolvimento que não reproduza os erros associados ao turismo de massas.

Liliane de Medeiros reforça essa visão e fala num turismo de natureza, sustentável e com respeito pelo espaço. “Um turismo não em massa. Um turismo natural, porque o turismo de massa não é isso que a gente quer”, afirmou. A CLAPA vê nesta perspetiva uma forma de criar dinamismo económico sem sacrificar a identidade do território nem agravar os problemas ambientais já existentes.

A associação também quer intervir na valorização dos trilhos e dos espaços ribeirinhos, articulando ações com a Câmara Municipal de Santarém, a Junta de Freguesia e outras entidades. Um dos projetos em preparação prevê a limpeza e ocupação de trilhos, bem como a criação de atividades regulares que aproximem a população do rio e da paisagem. A futura sede da CLAPA, a inaugurar no ano em que a associação celebra 50 anos, deverá igualmente acolher um Centro Interpretativo do Alviela, reforçando a dimensão pedagógica do projeto.

Para Penélope de Melo, essa conjugação entre sede, centro interpretativo e ações no terreno simboliza o rumo que a CLAPA quer tomar. Mais do que reagir à espuma no rio ou às descargas pontuais, a associação pretende construir uma cultura ambiental duradoura, alicerçada na participação cívica e na educação. “É um bocadinho água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, resumiu a dirigente, numa imagem que ajuda a explicar a perseverança necessária para mudar hábitos e proteger o Alviela.

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