A SEDES, uma das mais antigas associações cívicas portuguesas, prepara-se para entrar numa nova fase no distrito de Santarém, com uma estratégia clara de intervenção regional, debate público e mobilização da sociedade civil. À frente deste processo está José Arruda, presidente da distrital de Santarém, que em entrevista fez um balanço do primeiro ano de mandato e traçou um caminho exigente para 2026 e 2027, assente na reflexão, na participação e na afirmação do Ribatejo como região coesa e influente.
Fundada em 1970, a SEDES nasceu num contexto de contestação ao regime e de forte intervenção cívica. Os seus fundadores vinham de diferentes áreas académicas, profissões e sensibilidades políticas, mas partilhavam um mesmo compromisso com o humanismo, o desenvolvimento sociocultural e a democracia. Ao longo dos anos, a associação organizou encontros, criou grupos de trabalho, dinamizou debates por todo o país e foi pioneira na defesa da aproximação de Portugal à Comunidade Europeia. Depois do 25 de Abril de 1974, muitos dos seus membros assumiram responsabilidades na vida política e social, ao ponto de, como recorda a própria SEDES, dificilmente ter existido um Governo democrático sem associados da organização nas suas fileiras.
Essa herança mantém-se viva. Como sublinhou José Arruda, “a SEDES foi e continua a ser uma escola de cidadania, um espaço plural de reflexão onde se respeita a diversidade política e se valoriza o pensamento crítico”.
Uma nova fase em Santarém
A distrital de Santarém entrou num novo ciclo a 22 de abril de 2025, data em que José Arruda tomou posse. Nesse mesmo dia, foi inaugurado um espaço próprio da SEDES na Casa do Campino, em Santarém, um facto que o presidente considera histórico.
“Inaugurámos nesse dia a nossa sede regional, a única no país com um espaço próprio de delegação”, destacou, acrescentando que este passo simboliza a intenção de ter uma presença mais permanente e estruturada no território.
Ainda em abril, a SEDES organizou em Tomar um debate entre todos os candidatos a deputados à Assembleia da República. Segundo Arruda, “penso que foi a única iniciativa no país que reuniu todos os partidos com assento parlamentar num mesmo fórum de discussão naquele período eleitoral”.
Paralelamente, a distrital participou na criação do grupo SEDES a Sul, que junta Santarém, Setúbal, Portalegre, Évora, Beja e Algarve. “A ideia é trabalharmos em conjunto em temas que dizem respeito a todo o sul do país, nomeadamente a agricultura, o desenvolvimento regional e as infraestruturas”, explicou.
Conselho Consultivo e estratégia regional
Um dos eixos centrais da nova estratégia passa pela criação de um Conselho Consultivo composto por 32 personalidades da região, incluindo representantes das comunidades intermunicipais da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo, os presidentes dos Politécnicos de Santarém e Tomar, o ISLA e outras entidades regionais.
“Esta será a primeira reunião do Conselho Consultivo e vamos apresentar aquilo que entendemos ser a estratégia da SEDES para o distrito de Santarém nos anos de 2026 e 2027”, referiu José Arruda, sublinhando que o objetivo é envolver estas personalidades na construção de uma visão partilhada para o território.
O Conselho será presidido por Isaura Morais, deputada e presidente da Assembleia Municipal de Rio Maior, o que para Arruda reforça o compromisso das autarquias com este projeto.
Debates estruturantes para a região
A SEDES de Santarém quer assumir-se como um fórum permanente de discussão sobre grandes temas regionais e nacionais. Nesse sentido, decorreu esta quinta-feira, uma conferência com o antigo ministro António Costa e Silva, que abordou a necessidade de Portugal ter uma estratégia regional, nacional e internacional coerente, onde deu grande destaque ao distrito de Santarém.
“É muito interessante a forma como o professor Costa e Silva tem refletido sobre o papel de Portugal no mundo, e podemos agora trazer essa visão para o distrito”, afirmou.
Outro tema prioritário será o novo aeroporto de Lisboa. A SEDES pretende organizar uma conferência em Benavente, em parceria com a Câmara Municipal, para debater impactos económicos, ambientais e territoriais do projeto. “Vamos abordar a autarquia para ser nossa parceira, porque este é um assunto que vai transformar profundamente a região”, frisou Arruda.
Também o ensino superior está na agenda. O professor Miguel Botas Castanho apresentará uma proposta de estratégia para o ensino politécnico e defenderá a criação de uma escola de saúde e medicina na região, em conferência a anunciar.
“Temos de pensar porque é que Santarém é o único distrito do país com dois politécnicos e se esta é realmente a melhor solução para o desenvolvimento regional”, questionou o presidente da distrital.
A agricultura será outro pilar de debate, com o engenheiro Nuno Russo a liderar iniciativas nesse domínio. A intenção é descentralizar ações, levando conferências e encontros não só a Santarém, mas também ao norte e ao sul do distrito.
Uma região dividida e fragilizada
Um dos pontos mais críticos da intervenção de José Arruda foi a divisão administrativa do distrito entre duas CCDR, metade no Alentejo e metade no Centro, com muitos serviços coordenados a partir de Lisboa e Vale do Tejo.
“Isto está completamente desconectado e não faz sentido”, afirmou com veemência. “Mesmo que esta divisão tenha sido útil para captar fundos, deveria ter existido sempre uma estratégia única para o distrito”.
Para o presidente da SEDES Santarém, o Ribatejo perdeu peso político e liderança ao longo dos anos.
“Já fomos uma região muito importante, com grandes líderes dentro e fora dos partidos, hoje infelizmente não vemos essas lideranças aparecerem”, lamentou.
Defende por isso uma reflexão séria sobre a regionalização no continente, à semelhança do que aconteceu nos Açores e na Madeira. “Precisamos de discutir novas formas de organização territorial, criar lideranças regionais e envolver mais diretamente as pessoas nos processos eleitorais”, referiu, criticando o modelo em que dirigentes nacionais são enviados aos distritos apenas em época de campanha.
Turismo, economia e identidade regional
Na área do turismo, Arruda considera essencial reforçar a ligação a Lisboa. “Lisboa é onde estão os turistas e é aí que nos interessa ir buscá-los para visitar a nossa região”, afirmou, defendendo uma estratégia articulada com o Oeste e com a capital.
Ao mesmo tempo, sublinhou a importância de valorizar a identidade ribatejana. “O Ribatejo sempre foi uma região e precisa de se afirmar como tal, trabalhando em conjunto e falando a uma só voz”.
Um espaço de união da sociedade civil
Questionado sobre o papel da SEDES, José Arruda foi claro. “Precisamos urgentemente de um espaço de debate que reúna academia, empresas, autarquias e sociedade civil, e é isso que queremos ser”.
No Conselho Consultivo estão representados presidentes de câmara, dirigentes empresariais, académicos e figuras da sociedade civil, independentemente de filiações partidárias. “Temos pessoas de todos os partidos e isso é a nossa riqueza”, disse.
Recordou ainda que a SEDES já promoveu debates sobre emigração e falta de mão de obra na agricultura, turismo e restauração, temas que continuam atuais. “Precisamos dessas pessoas para trabalhar, e temos de encontrar soluções para cada região ser mais forte económica e socialmente”, sustentou.
“Meter a região a pensar-se”
No final da entrevista, quando questionado sobre uma frase que pudesse definir a SEDES, José Arruda não hesitou. “A melhor definição é meter a região a pensar-se”, afirmou, acrescentando que esse será o grande desígnio dos próximos anos.
Com um programa ambicioso de conferências, debates e iniciativas descentralizadas, a SEDES de Santarém quer assumir-se como um motor de reflexão cívica e estratégica para o Ribatejo, convocando políticos, instituições e comunicação social para um diálogo permanente sobre o futuro do território.
Como concluiu José Arruda, “estamos aqui para refletir, para pensar e para envolver todos neste debate, porque só assim podemos construir uma região mais forte e influente”.





