Cerca de 25 pessoas participaram este sábado, numa manifestação e concentração junto ao Hospital de Vila Franca de Xira para contestar a transferência das urgências de ginecologia e obstetrícia para o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, prevista para entrar em vigor no próximo dia 16 de março.
A iniciativa reuniu cidadãos e alguns profissionais que defendem a manutenção do serviço no hospital de Vila Franca de Xira, considerado uma unidade de referência para vários concelhos da região.
Entre os participantes esteve o deputado e vereador na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pelo Chega, Barreira Soares, que criticou a decisão e alertou para o impacto que poderá ter no acesso aos cuidados de saúde materna.
Apesar da dimensão reduzida do protesto, o autarca destacou o significado da iniciativa. “Apesar de ter pouca gente, tem um grande significado. Estão aqui pessoas que estão a lutar por uma causa que é de todos”, afirmou.
Barreira Soares lamentou a fraca adesão popular, considerando que muitos cidadãos ainda não estão habituados a exercer plenamente os seus direitos de participação cívica. “As pessoas estão pouco habituadas a exercer a sua cidadania. O cidadão tem responsabilidades e tem que ser mais ativo”, disse.
Na sua intervenção, o deputado defendeu que a mobilização da população é essencial para responsabilizar o poder político pelas decisões tomadas. “O poder político não pode estar ausente da responsabilidade, mas também cabe ao cidadão responsabilizar os políticos. O cidadão não serve apenas para pagar impostos, tem que estar presente, tem que manifestar a sua revolta quando discorda das decisões”, afirmou.
Para Barreira Soares, a retirada das urgências de obstetrícia do hospital de Vila Franca de Xira representa uma situação difícil de aceitar para a população servida pela unidade. “Estamos a falar de um hospital que serve cinco concelhos e cerca de 250 mil pessoas. Deixar de ter urgências de obstetrícia é algo inaceitável e impensável. Se me dissessem há uns anos que isto ia acontecer, eu diria que era impossível”, declarou.
O deputado garantiu que o tema já foi levado ao parlamento e que continuará a pressionar para que a decisão seja revista. “Na Assembleia da República já colocámos uma pergunta à ministra da Saúde, que resultou em várias questões sobre esta situação. Vamos aguardar a resposta e fazer força para que possamos dar a volta a esta decisão”, afirmou.
Durante a intervenção, o autarca abordou também os problemas estruturais que, na sua perspetiva, afetam o Serviço Nacional de Saúde. Segundo Barreira Soares, a escassez de médicos é uma das principais causas das dificuldades sentidas no funcionamento de vários serviços hospitalares.
“A procura por cuidados de saúde é muito grande e a oferta de médicos é cada vez menor. Os profissionais reformam-se, o número de médicos não acompanha as necessidades e muitos acabam também por trabalhar no setor privado”, referiu.
Perante este cenário, o deputado defende medidas de planeamento a longo prazo para garantir a sustentabilidade do sistema. “Temos de pensar a saúde a 20, 30 ou 40 anos. É necessário abrir mais vagas nas faculdades de medicina, criar mais cursos e dar melhores condições aos médicos, porque não podemos exigir que estudem tantos anos e depois tenham condições pouco atrativas”, afirmou.
Barreira Soares admitiu também que, perante a falta de profissionais, poderá ser necessário recorrer a médicos estrangeiros para reforçar o sistema. “Se vierem médicos de fora e respeitarem o país e as nossas regras, são bem-vindos. O importante é garantir que existem médicos suficientes para responder às necessidades da população”, disse.
A reorganização das urgências de obstetrícia e ginecologia na região foi anunciada pelo diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Almeida. A medida prevê a criação de uma urgência regional envolvendo o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, e o Hospital de Vila Franca de Xira.
Segundo o responsável, a partir de 16 de março os casos urgentes passarão a ser concentrados no hospital de Loures. Os casos considerados mais simples poderão continuar a ser atendidos em Vila Franca de Xira, enquanto as situações mais complexas serão encaminhadas para Loures.
De acordo com Álvaro Almeida, a triagem deverá ser feita previamente através da linha SNS24, sendo as grávidas aconselhadas a contactar este serviço antes de se deslocarem às urgências para serem encaminhadas para a unidade adequada.
O diretor executivo do SNS garantiu ainda que a reorganização não implicará a transferência permanente de equipas médicas entre hospitais, estando a ser preparado um sistema de escalas entre as duas unidades locais de saúde para assegurar o funcionamento contínuo da urgência centralizada.




