O NS foi conhecer a jovem promessa do ciclismo no Ribatejo, Inês Fonseca. A atleta representa uma das equipas com mais tradição na modalidade na região, o Clube Desportivo “Os Águias” de Alpiarça, e tem elevado a camisola alpiarcense aos patamares de glória de antigamente. A jovem tem acumulado títulos nacionais nas várias disciplinas da modalidade e é já uma das grandes promessas nacionais da modalidade.
Aos 15 anos, Inês reparte a vida entre o 10.º ano de Ciências e Tecnologias e uma agenda intensa de treinos em BTT, estrada, pista e ciclocross, sonhando com uma carreira profissional no ciclismo e, um dia, com os Jogos Olímpicos.

Natural da Glória do Ribatejo, no concelho de Salvaterra de Magos, Inês começou a pedalar em 2015, inspirada pelos primos que já praticavam a modalidade e que a levaram a ver uma prova, experiência que a deixou “fascinada” e a fez insistir com os pais para poder andar de bicicleta. Passou por várias equipas – entre elas a SFA de Alpiarça, o BTT de Marinhais e os Muitos Quilómetros de Almeirim – até chegar aos Águias de Alpiarça, clube com grande tradição no ciclismo e cuja camisola diz sentir como uma responsabilidade acrescida.
Atleta “all‑round”, reparte-se pelas quatro vertentes, mas assume que o principal foco desta época é a estrada, com uma preparação mais detalhada para essa disciplina, sem descuidar treinos específicos de BTT antes das provas para se adaptar à bicicleta e ao tipo de percurso. Entre os objetivos para 2026, destaca o Campeonato Nacional de Fundo e de Contrarrelógio, bem como a participação na Volta a Portugal, onde ambiciona, mais do que a vitória absoluta, a camisola da juventude, depois de já ter obtido um excelente resultado na edição anterior.
A jovem ciclista confessa que conciliar treinos e escola é “às vezes complicado”, sobretudo agora no 10.º ano, mas garante que a motivação ajuda a equilibrar estudos e competição. No plano académico, ainda não tem um rumo totalmente definido, embora admita que gostaria de seguir algo ligado ao desporto, à saúde e ao acompanhamento de atletas, área que lhe desperta interesse nas conversas técnicas com o treinador.
No percurso internacional, Inês traz já na bagagem a participação, em 2025, no Festival Olímpico da Juventude Europeia, realizado na Macedónia do Norte, onde competiu em BTT. Classifica a experiência como “incrível”, uma espécie de antecâmara dos Jogos Olímpicos, num ambiente mais pequeno mas com um ritmo competitivo muito elevado, partilhando pelotão com atletas de vários países e condições de preparação bastante diferentes das portuguesas. Entre os modelos que observa de perto está Maria Martins, referência tanto na estrada como na pista, e cujo exemplo reforça o sonho de seguir para uma grande equipa estrangeira.

O caminho até à alta competição faz-se, porém, com muitos sacrifícios familiares. O pai sublinha o peso financeiro da modalidade, desde o investimento em bicicletas – cada uma custando vários milhares de euros – às manutenções e às deslocações, lembrando que, só para treinar em Alpiarça, as saídas de casa significam dezenas de quilómetros e despesas constantes. Sem apoios estruturados da federação nos escalões de formação, são o clube, a família e alguns parceiros locais que asseguram praticamente tudo, desde o dia a dia aos momentos em que Inês veste a camisola da seleção nacional.
Inês confirma que, apesar de já ter representado Portugal em várias ocasiões, não existe, por enquanto, um apoio consistente para jovens atletas, apontando que apenas a partir do estatuto de alto rendimento, já em elites, surgem alguns benefícios. Para a ciclista, seria importante sentir um maior envolvimento federativo nas bases, tanto pelo alívio financeiro às famílias como pela sensação de reconhecimento e acompanhamento do talento.

O pai reforça essa crítica, defendendo uma aposta séria na formação, à semelhança do que acontece em Espanha, onde as colegas de Inês são acompanhadas desde cedo por programas federativos específicos. Lembra que o sucesso português na pista não foi fruto do acaso, mas do investimento na construção de um velódromo de topo em Sangalhos e na criação de condições de trabalho para um selecionador, estratégia que conduziu a títulos e medalhas olímpicas. Na sua perspetiva, esse modelo deveria ser alargado à estrada, ao BTT e ao ciclocrosse, evitando que muitos jovens, apesar dos resultados obtidos na formação, fiquem pelo caminho por falta de apoios na transição para elites.
Ainda assim, há sinais de mudança que alimentam algum otimismo: a nova direção federativa tem promovido mais estágios, a partir de cadetes, e o calendário de pista está a ser ampliado ao longo do ano, com a perspetiva de provas fora de Sangalhos, incluindo uma competição em Alpiarça, acompanhada pela reabilitação da pista local com apoio camarário. Para Inês, esses pequenos passos, somados ao apoio incondicional dos Águias e da família, são essenciais para continuar a acreditar que é possível transformar o gosto pelas duas rodas numa carreira profissional, levando “o nome dos Águias o mais alto possível” e, quem sabe, um dia, a bandeira portuguesa aos palcos olímpicos.






