A instabilidade das encostas de Santarém, agravada pelas recentes chuvas intensas e cheias do Tejo, está a colocar em risco a principal linha férrea do país, a Linha do Norte, alertou esta terça-feira o presidente da Câmara de Santarém, João Leite. A Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, que se deslocou ao concelho para avaliar os danos, reconheceu a gravidade da situação e garantiu que o Governo vai redirecionar financiamentos para intervenções urgentes de estabilização das arribas e reforço das infraestruturas de proteção.
À margem de uma visita ao Bairro de Alfange, uma das zonas mais afetadas, João Leite sublinhou que as encostas em derrocada não ameaçam apenas moradores e acessos locais, mas também a própria Linha do Norte, “a linha principal férrea do país”, cuja interrupção teria impactos económicos e sociais de dimensão nacional. O autarca explicou que a linha atravessa Santarém encostada às arribas e que já se registam deslizamentos preocupantes, nomeadamente nas encostas das Quebradas, o que obriga a uma resposta “à escala nacional”.
Do lado do Governo, Maria da Graça Carvalho afirmou que, embora a situação das cheias do Tejo esteja atualmente “controlada” e longe dos caudais críticos registados nas grandes cheias dos anos 70, a principal preocupação passou agora para as consequências das chuvas nas arribas, deslizamentos de terra e cortes de estradas. A ministra destacou que é “urgente” concluir a avaliação técnica das encostas, trabalho que está a ser feito com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), para definir e priorizar as intervenções necessárias.
A governante adiantou que se vai olhar para os vários instrumentos de financiamento disponíveis – programas operacionais regionais, PO Sustentável 2030, remanescente do PRR e Fundo Ambiental – para redirecionar verbas para estas novas prioridades, nomeadamente a consolidação das arribas de Santarém e de outras zonas do país afetadas pelo mau tempo. Maria da Graça Carvalho lembrou ainda que a Comissão Europeia, pela voz da presidente Ursula von der Leyen, já deu luz verde à redefinição de prioridades, o que permitirá adaptar rapidamente os fundos às necessidades mais urgentes.
No terreno, João Leite revelou que o município trabalha com base num estudo do LNEC, acompanhado pelo engenheiro Alexandre Pinto, do Instituto Superior Técnico, em articulação com a Proteção Civil e os serviços técnicos da autarquia, para monitorizar em permanência os pontos mais críticos. O autarca referiu que o concelho contou, durante dois dias, com uma equipa especializada da Força Especial de Proteção Civil, equipada com drones para inspecionar as encostas, e que estão a ser hierarquizadas as intervenções mais urgentes, mobilizando recursos nacionais e fundos comunitários.
Algumas obras já estão em curso, sobretudo nas situações em que a Câmara pode intervir diretamente, como o acesso ao Bairro de Alfange, onde um deslizamento destruiu a estrada principal. Segundo João Leite, estão a ser removidas terras, consolidado o arruamento e reposto o acesso para dezenas de moradores, ao mesmo tempo que se preparam soluções de maior envergadura para encostas que exigem projetos altamente especializados e investimentos de “milhões de euros” em Santarém, inviáveis sem apoio do Governo central.
Tanto a ministra como o presidente da Câmara convergem na ideia de que este é o momento para resolver um problema “diagnosticado há muitos anos”, mas tornado crítico pela sucessão de episódios de chuva extrema. Maria da Graça Carvalho salientou que o que se passa em Santarém se repete em várias zonas do país, tornando urgente tornar o território “mais resistente”, enquanto João Leite enfatizou a articulação próxima com o Governo, garantindo que as decisões estão a ser tomadas em parceria para proteger, antes de mais, a vida das populações e evitar uma calamidade que possa parar o principal eixo ferroviário nacional.














