A Póvoa de Santa Iria acolheu na passada sexta-feira, a inauguração do primeiro posto privado de abastecimento de hidrogénio verde para veículos em Portugal, localizado no concelho de Vila Franca de Xira. A infraestrutura pertence à HyChem, empresa do grupo A4F especializada na química do hidrogénio. A cerimónia reuniu cerca de uma centena de convidados e contou com a presença do presidente da Câmara Municipal, Fernando Paulo Ferreira. O momento simbólico fez se com o abastecimento de um veículo ligeiro Toyota Mirai, exemplo da mobilidade a hidrogénio já disponível no mercado.
Para o autarca, a estação representa um sinal claro de liderança. “A cidade da Póvoa de Santa Iria tem estado na linha da frente do que é a investigação ligada à indústria, nomeadamente à indústria verde”, afirmou. “Abrir o primeiro posto de abastecimento público de hidrogénio verde é um stepping stone importante no desenvolvimento, quer industrial, quer sobretudo da mobilidade”, acrescentou. Fernando Paulo Ferreira sublinhou ainda o papel da empresa na reconversão do antigo complexo da Solvay. “Tem hoje cerca do dobro dos funcionários que tinha antes, sobretudo trabalhadores altamente qualificados, e coloca Vila Franca no mapa do desenvolvimento”, disse.
Manuel Gil Antunes, CEO da HyChem, definiu a nova estação como peça estratégica no ecossistema do hidrogénio. “Este posto de abastecimento pretende ser um catalisador para o desenvolvimento da economia do hidrogénio”, afirmou. “Produzimos hidrogénio há 90 anos, hidrogénio verde por eletrólise da água com energia totalmente renovável, mas é preciso fazê-lo chegar aos utilizadores”, explicou. “Este local pode ser um ponto de encontro entre quem produz, quem fabrica equipamentos e quem precisa deles para a descarbonização da economia”, acrescentou.
O responsável enfatizou a importância das demonstrações no terreno. “É preciso mostrar os equipamentos, demonstrar o uso e ter capacidade para fornecer o hidrogénio”, disse. “A nossa solução consegue disponibilizar hidrogénio para veículos a um preço comparável com o diesel, só que não tem emissões”, afirmou. Sobre o papel da HyChem na cadeia de valor, reforçou a ideia de progressão coordenada. “Primeiro tem de haver hidrogénio, depois equipamentos que usem esse hidrogénio e a seguir utilizadores finais”, sintetizou. “Se for só uma destas componentes, não vai”, concluiu.
A empresa apresentou também a marca Hy2Move, dedicada à mobilidade. O presidente da Câmara recuperou a ideia de mudança estrutural. “Encaro a HyChem numa perspetiva de Hy2Change”, afirmou, realçando “os kits de adaptação para motores de hidrogénio” e “a colaboração entre a academia e a empresa na procura de soluções para os agentes económicos”.
No plano industrial, Manuel Gil Antunes detalhou os investimentos em curso. “Em parceria com a TechnoVeritas desenvolvemos eletrólisadores alcalinos de conceção e fabrico cem por cento portugueses”, afirmou. “O protótipo está instalado nas nossas instalações e o primeiro equipamento comercial está a ser montado”, adiantou. “Para a produção em série fizemos uma candidatura ao PRR que foi aprovada, vamos instalar a fábrica em Benavente, aproveitando uma infraestrutura existente e poupando investimento”, explicou. “O investimento global ronda os nove milhões de euros, com apoio de cerca de trinta por cento do PRR, e prevemos cerca de trinta e cinco postos de trabalho altamente qualificados”, indicou. “O objetivo é que, em junho do próximo ano, a fábrica esteja em condições de funcionar”, acrescentou.
Questionado sobre aplicações prioritárias, o CEO listou vários segmentos. “Queremos servir veículos de transporte de pessoas e mercadorias, mas também equipamentos para uso industrial e de serviços”, afirmou. “Falo de empilhadores, gruas e veículos de higiene urbana, que alguns fabricantes já produzem a hidrogénio”, disse. Apontou ainda a descarbonização aeroportuária como aposta estratégica. “O hidrogénio pode desempenhar um papel muito importante nas operações em terra, desde autocarros de circulação de passageiros a escadas, viaturas de apoio e veículos de guiamento”, referiu.
Para o município, a estação confirma uma trajetória de reindustrialização verde. “Temos aqui um grupo de doutorandos associados à indústria que é dos maiores do país”, afirmou Fernando Paulo Ferreira. “A nossa perspetiva é estar no início de uma transformação da mobilidade através do hidrogénio verde”, disse. “É uma forma moderna e aplicada à realidade de colocar Vila Franca à frente”, concluiu.
A cerimónia terminou com visitas técnicas ao novo posto e com contactos entre empresas, entidades públicas e academia. Nas palavras de Manuel Gil Antunes, “este posto resolve o problema de proximidade, permitindo que o hidrogénio chegue aos utilizadores finais”. Nas palavras do autarca, “é um passo que aproxima a tecnologia da vida das pessoas e das empresas”. Ambas as perspetivas convergem numa mesma ideia, a de que a inauguração não encerra um ciclo. Marca o arranque de um corredor de inovação que liga produção, equipamentos e utilização real, com a Póvoa de Santa Iria como palco e com Vila Franca de Xira a querer continuar a liderar pelo exemplo.























