O CEO da Fundação Mendes Gonçalves alertou hoje que a falta de orientações nacionais para a alimentação nas creches resulta em práticas muito díspares, o que pode comprometer o desenvolvimento das crianças.
Tiago Pereira defendeu que a melhoria da alimentação nas creches e jardins-de-infância “não pode continuar dependente da sensibilidade individual de cada instituição”.
Em declarações à Lusa no âmbito da apresentação do projeto “Ambientes que Nutrem”, da fundação que dirige, o responsável afirmou que existe “um vazio caricato e paradoxal” na política educativa portuguesa relativamente à alimentação entre os 0 e os 3 anos, faixa etária que é “determinante para o desenvolvimento cerebral e para a relação futura com os alimentos”.
“O Ministério da Educação não tem competências sobre a educação dos 0 aos 3 anos e isso cria clivagens. Como não existem orientações claras, encontramos práticas muito positivas e outras claramente inadequadas”, afirmou.
Segundo o CEO, a fundação, sediada na Golegã, tem identificado realidades “muito díspares”: “Há creches com práticas exemplares, mas também situações em que são servidos alimentos processados, bolachas com açúcar ou sobremesas industrializadas”.
O responsável alertou que uma alimentação inadequada nos primeiros anos de vida tem “impactos significativos e duradouros”, lembrando que a nutrição é um dos três pilares essenciais para o desenvolvimento cerebral nos primeiros mil dias de vida, juntamente com a vinculação afetiva e uma educação de qualidade.
Com o projeto “Ambientes que Nutrem”, a Fundação Mendes Gonçalves quer melhorar a alimentação na primeira infância, promover espaços de refeição mais saudáveis e influenciar políticas públicas.
Além da alimentação, o projeto destaca o papel do espaço físico onde decorrem as refeições.
“O espaço funciona como um educador silencioso. A disposição das mesas, o ruído, a luz e a forma como os alimentos são apresentados influenciam escolhas e comportamentos alimentares”, disse.
A fundação apresentou recentemente um documento com recomendações para decisores políticos regionais e nacionais, em que recomenda a existência de critérios mínimos de conforto térmico, acústico e luminoso nos concursos de requalificação escolar e que o planeamento dos espaços alimentares envolva equipas multidisciplinares, como arquitetos, nutricionistas e educadores.
A fundação recomenda ainda o reforço de equipas multidisciplinares com nutricionistas, o uso de refeitórios como espaços de aprendizagem e a criação de cadeias curtas de abastecimento envolvendo produtores locais.
O grupo está também a lançar o projeto “Cuidar em Rede”, destinado a creches e jardins-de-infância – dos 0 aos 6 anos -, que irá disponibilizar formação, partilha de boas práticas e apoio direto às instituições. “A rede já está a ser constituída e envolve creches da região e de concelhos limítrofes”, adiantou.
Tiago Pereira reconhece que os pais estão cada vez mais sensibilizados para a importância da alimentação, mas lembra que “vidas aceleradas, stress e falta de tempo” dificultam a adoção das melhores práticas.
“Não estamos a dizer que as famílias precisam de cozinhas perfeitas, mas que pequenas alterações podem transformar o momento da refeição num espaço mais positivo e saudável”, afirmou.
Criada em 2025 e sediada na Golegã, a Fundação Mendes Gonçalves desenvolve projetos nas áreas da educação, regeneração e nutrição, com o objetivo de “cuidar do presente e construir um futuro mais promissor e um mundo mais sustentável”.




