O CNEMA, em Santarém, foi este fim de semana, de 17, 18 e 19 de julho, palco de uma metamorfose pouco habitual: o recinto habitualmente associado a feiras e eventos agroindustriais tornou-se numa arena tomada por motores em alta rotação, cheiro a borracha queimada e um público disposto a passar horas colado às barreiras. O Power Arena, apresentado como o maior festival de motorsport e entretenimento ao vivo em Portugal, levou até à capital do Ribatejo milhares de pessoas, num ambiente que misturou competição, espetáculo e cultura automóvel.
Logo à entrada, o contraste era evidente. Em vez de tratores e stands institucionais, viam-se reboques com carros de competição, equipas a ultimar preparativos, roulotes de comida rápida e zonas de merchandising com t-shirts, bonés e miniaturas de veículos. O som dos motores sobrepunha-se à música, e a cada aceleração mais forte os olhares se viravam para dentro da arena.
Durante três dias, o recinto foi ponto de encontro de aficionados do drift, das corridas de drag e dos eventos mais extremos ligados ao mundo automóvel. Entre uma prova e outra, o público circulava pelas zonas de exposição, onde carros de alta performance, máquinas de drift, veículos de competição e dezenas de projetos de tuning faziam as delícias de entusiastas vindos de todo o país. Havia quem chegasse com o bilhete comprado há semanas e quem tivesse decidido à última hora, atraído pelos vídeos e fotografias que circulavam nas redes sociais.
O Drift Show foi, em muitos momentos, o centro das atenções. Na pista delimitada, os pilotos aproximavam-se da linha de partida com movimentos quase coreografados. Segundos depois, ficavam envoltos numa nuvem de fumo, pneus a chiar e carros a deslizar em derrapagens milimétricas, a poucos metros das bancadas.
Os espectadores, alguns munidos de tampões de ouvidos, levantavam-se sempre que uma passagem parecia mais arriscada. Havia quem se mantivesse com o telemóvel em riste para captar o melhor ângulo, e quem preferisse assistir com calma, apreciando a combinação de controlo, potência e precisão que caracteriza este tipo de disciplina. Entre cada sessão, os pilotos regressavam à zona técnica, afinavam pneus, regulavam pressões e preparavam o carro para o desafio seguinte.
Mas o programa não se esgotava no drift. As corridas de drag trouxeram a adrenalina da aceleração pura: dois carros alinhados lado a lado, sem margem para erro, num arranque pensado para testar a potência dos motores e os reflexos dos pilotos. O silêncio relativo que antecedia cada partida era rapidamente quebrado pelo rugido em crescendo e pelo olhar atento do público ao longo da reta.
A par das provas principais, havia espaço para show: demonstrações de freestyle motocross, sessões de burnouts e outras manobras concebidas para impressionar visualmente, reforçando o lado performativo de um evento que quer ser, tanto quanto competição, espetáculo. O formato ajudou a que quem não domina a linguagem técnica do motorsport pudesse, ainda assim, reconhecer o impacto e a intensidade do que se passava em pista.
Nas bancadas e nas zonas de campismo, o ambiente era claramente de festival. Famílias com crianças, grupos de amigos, casais e muitos jovens circulavam entre a pista, os food trucks e os espaços de exposição. Havia quem viajasse propositadamente de outras regiões para ver de perto carros que normalmente só encontra em vídeos, e quem aproveitasse o fim de semana para, além da vertente desportiva, usufruir da experiência de campismo associada ao evento.
Os mais pequenos apontavam para os carros mais chamativos, pediam fotografias ao lado dos veículos e vibravam com cada arrancada mais ruidosa. Os mais experientes comentavam setups, falavam de potência, pneus e suspensões, enquanto discutiam prestações de pilotos e comparavam modelos presentes no recinto. No meio, muitos curiosos descobriam pela primeira vez a cultura ligada ao drift, drag e tuning, num contacto direto que serviu de porta de entrada para um universo que, muitas vezes, apenas conhecem através do ecrã.
Se o drift despertava aplausos e as corridas de drag prendiam o olhar à reta, foi o Destruction Derby que concentrou alguns dos momentos mais intensos do fim de semana. Numa arena fechada, os carros entraram já com a missão assumida: resistir o máximo de tempo possível a embates sucessivos, até que apenas um permanecesse em movimento.
O público apercebia-se rapidamente da escalada de tensão. A cada impacto, levantavam-se vozes, exclamações e uma mistura de espanto e entusiasmo. As chapas amolgadas, os componentes a saltar e os carros progressivamente mais debilitados davam corpo à lógica simples da prova: quem aguentar mais, ganha. No final, sob aplausos, a arena revelava um cenário de carros danificados que contrastava com a precisão e o rigor das provas mais técnicas.
Ao longo dos três dias, o Power Arena afirmou-se no CNEMA como mais do que um evento de carros: foi um festival que cruzou competição, espetáculo e a cultura automóvel, transformando Santarém, por um fim de semana, num centro de gravidade para quem vive o motorsport e procura experiências onde a adrenalina é a protagonista.






















