Numa garagem repleta de cabeçudos, gigantones, fantoches e dezenas de jogos construídos à mão, o grupo Enxamula guarda muito mais do que objetos — guarda memórias de um país inteiro. Nascido da paixão de um casal que emigrou para os Estados Unidos e regressou a Portugal com um contentor cheio de jogos tradicionais, este coletivo escalabitano dedica-se a levar a brincadeira de outros tempos a escolas, lares de idosos e festas populares. António Heitor, Carla Heitor, Ana Paula Guedes e Filipa Farinha contam a história de um projeto que transforma cartão, jornal e cola em instrumentos de cultura e educação.
Tudo começou no pós-25 de Abril, num grupo informal de amigos que se reunia no Café Brasileira, no Largo do Seminário, em Santarém. “É um grupo de amigos, digamos, de café. Era o grupo da Brasileira. Tínhamos futebol, tínhamos fantoches, tínhamos cabeçudos”, recorda António Heitor, a alma fundadora do projeto.
Esse núcleo de convívio recebeu, em finais dos anos 70, uma proposta da Direcção-Geral dos Desportos (atual Instituto Português do Desporto e da Juventude) por intermédio do Professor Cândido de Azevedo, para realizar uma recolha de jogos tradicionais no distrito de Santarém. “Pegámos num lápis e num papel e fomos todos. Era a nível do distrito, desde Mação até Vila Franca. Todos os fins de semana, em 78-79, corremos o distrito e começámos a fazer recolha”, explica António. O trabalho resultou na publicação de um livro em 1979 e na organização de um encontro com 20 a 30 associações do distrito, realizado no recinto da Feira do Ribatejo.
A recolha revelou uma diversidade extraordinária. Corridas de sacos, pau de sebo, jogo da malha, jogo do burro, partido ao cântaro, malhão ao galo. Eram dezenas de variantes, muitas vezes com nomes e regras diferentes de freguesia para freguesia. “Somos um país riquíssimo nesta brincadeira. Não é rica, é riquíssima a diversidade e a forma como o povo, cada um, adoptou a sua”, sublinha António.
No Ribatejo, o chinquilho destaca-se como o jogo mais emblemático, embora com variantes significativas entre as três sub-regiões — Charneca, Bairro e Lezíria. Na Feira do Ribatejo, quando Celestino Graça mandou vir praticantes de chinquilho de diferentes zonas, a confusão foi inevitável: uns usavam pedras, outros malhas de diferentes pesos, e na zona do Entroncamento, por influência ferroviária, utilizavam-se troncos de madeira cortados com malhas que chegavam a pesar quase três quilos.
Nas Fazendas de Almeirim, uma variante do jogo da malha, o “jogo do bicho”, manteve-se durante anos como tradição de verão. “Cada um põe uma moeda em cima, mandam as malhas. As moedas caem, medem, e quem fica mais perto leva tudo”, descreve António, acrescentando que o jogo servia, sobretudo, “para beber uma cervejinha de borla”.
Trinta anos na América e a descoberta do mundo dos jogos
Em 1991, António e Carla emigraram para os Estados Unidos, instalando-se em Danbury, Connecticut, a dez minutos da fronteira com o estado de Nova Iorque. “Quando fomos para os Estados Unidos, descobrimos outro mundo dos jogos, literalmente do mundo”, conta Carla Heitor. A experiência internacional confirmou uma intuição: os jogos tradicionais são universais. “Chegámos à conclusão que jogos tradicionais é muito difícil de encontrar a origem. Pode ser popular num sítio, mas a origem é muito mais complicado.”
O casal participou durante cerca de 20 anos num festival étnico que atraía 50 a 60 mil pessoas por fim de semana. “No princípio, fomos nós a pedir a eles um espaçozinho para pôr as crianças a jogar. Passados dois anos, já eram eles a pagarem-nos, porque punhamos lá jogos não só portugueses”, relata Carla. O sucesso foi crescente, com o espaço de jogos a tornar-se uma das atrações mais procuradas do festival.
O mancala, jogo de tabuleiro de origem africana, foi uma das grandes descobertas. “A gente descobriu isso nas escolas primárias dos Estados Unidos. Em cada sala tem um jogo de mancala”, revela Carla. Filipa Farinha, professora de formação, confirma o valor pedagógico: “Alguns livros de matemática do quinto e sexto ano já incluem o jogo de mancala, quando dão estratégias de estatística e iniciação. Utilizo este jogo para a distribuição.”
Na América, o casal criou uma Escola do Folclore, aberta todos os domingos a filhos de emigrantes portugueses em idade escolar. “Nós tínhamos uma comunidade grande de portugueses, mas nenhuma daquelas crianças sabia falar português ou sabia alguma coisa acerca de Portugal”, recorda Carla Heitor. O projeto incluía danças, lengalengas, canções em português, jogos tradicionais, teatro e fantoches.
Todos os anos, as crianças apresentavam uma peça de teatro baseada nas tradições aprendidas — desde os rituais do Carnaval com caretos até à Dança dos Cadarços, de origem açoriana, que se revelou partilhada com Espanha, Itália e Suécia. O trabalho com a comunidade rendeu-lhes reconhecimento oficial, com honras atribuídas no Capitólio do Estado de Connecticut pela ligação às crianças e à preservação da cultura portuguesa.
O Ministério da Educação americano acabou por conceder apoios financeiros, cerca de 5 mil dólares por semestre, para o desenvolvimento das atividades. “Com esses 5 mil dólares já consegui pôr os miúdos mais envolvidos na cultura”, afirma Carla Heitor.
O regresso a Portugal e o nascimento do Enxamula
Em 2019, após 30 anos nos Estados Unidos, o casal regressou a Santarém. Venderam a casa na América, encheram um contentor não com mobília, mas com jogos, e recomeçaram do zero. “A mobília? Não, há tanta mobília Portugal. Mobília fora! Vamos levar os jogos”, conta António, entre risos.
O regresso foi um choque. “Para já, os jogos mal se veem agora aqui. Tudo evoluiu. Estradas, autoestradas — tudo evoluiu”, lamenta Carla Heitor. A transição foi difícil, mas rapidamente encontraram aliados nas Fazendas de Almeirim e começaram, quase clandestinamente, a levar jogos a escolas e eventos. “Estávamos a fazer jogos clandestinamente. Cada vez que andávamos ali a limpar as andas para os miúdos, parecia que vinha a GNR”, brinca Filipa. Relembre que o final de 2019 e início de 2020 coincidiu com a pandemia da COVID-19 e que todas as atividades de grupo foram proibidas pelas autoridades por representarem risco de contágio.
O nome do grupo surgiu num desses momentos de convívio. “Enxamula” (encher a mula) é uma expressão ribatejana que reflete a filosofia do grupo: depois de horas a animar crianças e adultos, “tem que se encher a mula”, acrescentando que é já tradição irem almoçar ou jantar todos juntos após as atividades.
Além dos jogos, o Enxamula criou um universo de personagens construídas artesanalmente. O grupo possui atualmente oito gigantones e cabeçudos, além de fantoches híbridos, bonecos que combinam a mão do manipulador com uma cabeça de fantoche, criando uma interação única com o público.
A diferença entre cabeçudos e gigantones é essencialmente de escala: o cabeçudo encaixa no corpo do manipulador, que vê através da boca da personagem; o gigantone é mais alto, sustentado por um pau com uma estrutura em cruz nos ombros, preso ao cinto do portador. “Isto foi inventado por nós. Copiámos a ideia das procissões, onde o gajo vai com a cruz à frente, presa ao cinto”, explica António.
As personagens são versáteis. Um mesmo cabeçudo já foi Camões, Fernando Pessoa, um grego olímpico e um cozinheiro — bastam acessórios e troca de chapéu. “Quem olha para ele diz: este gajo já foi Camões, já foi um grego e já foi cozinheiro. Mas todos eles têm uma cara impecável para aquilo. É só aquele bigode, dá tudo”, descreve Carla com orgulho.
A construção é inteiramente manual, usando materiais reciclados: jornal, cartão, balões, pasta de papel e cola. “Não gastamos dinheiro. Aproveitamos todos os materiais que conseguimos encontrar”, garante Carla. O processo demora pelo menos três semanas de trabalho diário, com longos períodos de secagem entre camadas. “No inverno é horrível, porque não seca”, acrescenta.
O trabalho nas escolas é a grande vocação do Enxamula. António e a equipa visitam regularmente escolas primárias, secundárias e até o Instituto Politécnico de Santarém, levando jogos de mesa, brinquedos tradicionais e as suas personagens de cabeçudos.
“Quando eu vou às escolas, levo sempre um saquinho, levo um lenço na cabeça, como era antigamente, e levo um cântaro. Ele leva um cinto com a espada e o chapéu. Entramos para dar uma introdução do que são jogos e brinquedos e como é que eu brincava quando era mais nova”, conta António Heitor. “Os miúdos ficam perplexos quando descobrem que uma cana cortada com um bocado de fio era um instrumento musical, ou que bolas de trapo serviam para jogar futebol”.
Filipa Farinha, enquanto professora, identifica benefícios pedagógicos concretos: “Os miúdos desistem à mínima. Não têm aquela resiliência de fazer e tentar, porque estes jogos são um bocadinho isso, tentativa e erro. E os miúdos hoje não têm isso porque é tudo imediato. Carrega no botão e aparece logo a seguir.” Os jogos tradicionais trabalham motricidade fina, interação social, dinâmicas de grupo e raciocínio matemático, explica a professora.
O jogo do Galo, por exemplo, é apresentado com apenas três peças por jogador, uma versão que obriga a movimentar peças no tabuleiro depois de todas estarem colocadas. “Eu digo sempre: há sempre um vencedor neste jogo. Eles olham para mim incrédulos”, conta António. O jogo do Sapo, fabricado a partir de um velho armário trazido da América, é outro dos preferidos das crianças.
A experiência com idosos revelou-se igualmente transformadora. No Dia Mundial do Alzheimer, o grupo levou fantoches híbridos a um encontro de idosos que sofrem de Alzheimer em Fonte Boa. “Eu estou assim a falar, mexo e faço gestos. E eles olham, falam, dão festinhas e dão beijinhos ao boneco. Nem sabem que estamos lá. Não somos nós, é o boneco”, descreve Ana Paula, visivelmente emocionada.
“Dizem coisas tão queridas: ‘Tão querida, tão loirinha! Olha para aquela carinha!’ É amoroso”, acrescenta. A reação dos idosos espelha a das crianças: ambos interagem com as personagens como se fossem reais, nunca olhando para o manipulador, mas sempre para os olhos do boneco.
O Enxamula funciona como empresa individual, registada em nome de António Heitor, com um volume de negócios que nunca atinge os 15 mil euros anuais. “Somos muito bonzinhos nos preços. Há um bocadinho de amor à camisola porque a gente gosta de fazer isto”, admite António. A regra é simples: o pouco que se ganha serve para comer juntos depois de cada ação.
A garagem-atelier é um verdadeiro museu: cabeçudos pendurados no teto, gigantones encostados às paredes, fatos cosidos nas duas máquinas de costura da casa, jogos empilhados em prateleiras. Para o Carnaval de Alpiarça, em que vai participar a 1 de março, o grupo prepara novos adereços todos em cartão, como no ano anterior, quando desfilaram com câmaras fotográficas gigantes e um tuk-tuk feito de cana.
O calendário do Enxamula já tem compromissos para os próximos meses: atividades nas Fontainhas, presença nas comemorações do 25 de Abril, ações em Arruda dos Vinhos e Aveiras de Cima em parceria com o grupo Terra Velhinha da Azambuja, participação no Festival de Teatro e Folclore de Santarém. O grupo está também integrado no circuito cultural do Festival Celestino Graça, na Casa do Campino.
“Resumindo e concluindo, a gente gosta muito disto e queremos transmitir isso ao outro”, afirma Carla. O grupo conta com presença no Facebook e no Instagram, e os membros assumem todos os papéis — da costura dos fatos à construção dos cabeçudos, da animação nas escolas à gestão administrativa.
Num tempo em que as crianças desistem à primeira dificuldade e os ecrãs substituem o contacto humano, o Enxamula insiste em provar que uma caixa de cartão, um punhado de feijões e muita imaginação continuam a ser a melhor receita para aprender a brincar — e, com isso, a viver.


























