Dois meses após a tempestade Kristin, 12 crianças do centro de acolhimento destruído em Ferreira do Zêzere continuam realojadas num albergue e cerca de 300 famílias mantêm acompanhamento das equipas da ação social, enfrentando impactos sociais e emocionais significativos.
O Centro de Acolhimento Temporário (CAT), uma resposta social de primeira linha na proteção e defesa de crianças, mantém-se de portas fechadas num silêncio com dois meses. Ali ecoa apenas o som dos carros a passar na rua, lembrando a ausência dos seus moradores.
“Naquela noite, o telhado do CAT desabou e tivemos de retirar rapidamente as crianças que lá estavam. A prioridade foi garantir segurança e apoio emocional, e felizmente conseguimos minimizar o trauma”, disse à Lusa a vereadora com o pelouro da Ação Social e Políticas Humanas na Câmara de Ferreira do Zêzere, Patrícia Gomes, numa visita guiada às instalações, cujo telhado desabou e onde o vento e a chuva forçaram as janelas, deixando um rasto de medo e destroços ainda visíveis.
Hoje, em redor do edifício de dois pisos, na freguesia de Nossa Senhora do Pranto, a cerca de 10 minutos da sede do concelho, ouvem-se apenas pássaros num dia de sol e brisa primaveril.
As crianças e jovens, com idades entre 3 e 17 anos, permanecem, dois meses depois, num albergue de peregrinos na localidade vizinha de Areias, adaptado para lhes proporcionar proteção, conforto e acompanhamento contínuo, até que seja possível recuperar totalmente o CAT, embora não haja ainda previsão para tal.
“O albergue é hoje um espaço provisório, mas organizado e seguro. O trauma vivido pelas crianças reflete-se nas rotinas alteradas, interrupções na escola e incertezas emocionais, mas estiveram sempre acompanhadas e o impacto foi minimizado”, salientou a responsável.
Para a vereadora, as técnicas e funcionárias da associação têm desempenhado um “papel crucial” por transformarem o realojamento numa “experiência que transmite segurança e apoio psicológico, mitigando parcialmente o impacto inicial”.
O CAT é apenas o exemplo mais visível da devastação neste concelho do distrito de Santarém, com a reparação do edifício estimada em cerca de 300 mil euros, a que se alia uma paisagem florestal com as árvores partidas ou vergadas à força do vento, a par de postes tombados, casas com remendos e telhados provisórios, e uma zona industrial muito atingida.
O vento ainda faz mover alguns ramos soltos e o chão guarda marcas do temporal de 28 de janeiro.
Cerca de 85% das habitações sofreram danos, deixando muitas famílias desalojadas ou em situação de vulnerabilidade, relatou a vereadora, dando conta de um desalento ainda presente na comunidade.
“A destruição, a tristeza e o medo ainda são palavras correntes quando se fala do que aconteceu. As marcas emocionais são profundas, especialmente em crianças e idosos”, sublinhou Patrícia Gomes.
Além das habitações, todos os oito equipamentos sociais do concelho foram afetados, incluindo lares, creches e centros de dia, com telhados destruídos, infiltrações e falhas de energia.
O prejuízo total nestes espaços ultrapassa os 900 mil euros, exigindo reconstrução e reorganização dos serviços.
As equipas de ação social mantêm-se no terreno, acompanhando cerca de 300 famílias e garantindo apoio alimentar, reparações, fornecimento de bens essenciais, orientação social e acompanhamento psicológico.
O número de pedidos de ajuda continua elevado – ultrapassa os 4.000, num reflexo do impacto duradouro do fenómeno meteorológico na vida das pessoas.
O trauma afeta também a população idosa, com relatos de solidão, ansiedade e fragilidade emocional.
A instabilidade económica prolonga as dificuldades no comércio local e nas pequenas empresas, enquanto a reconstrução de habitações e infraestruturas avança lentamente, limitada por recursos técnicos e humanos insuficientes para atender todas as situações de forma célere.
“Este é um processo lento, moroso e difícil. As crianças do CAT vão permanecer temporariamente no albergue até que seja possível recuperar o espaço e muitas famílias continuam à espera de reparações. A incerteza aumenta o impacto psicológico, mas estamos a acompanhar cada caso de perto”, disse a vereadora, destacando, por outro lado, a resiliência da comunidade e a importância de manter a solidariedade.
“A tempestade ensinou-nos que a resposta social precisa ser rápida, coordenada e centrada nas pessoas. Precisamos de estar atentos às necessidades de cada família, garantir acompanhamento psicológico e social contínuo, e apoiar os mais vulneráveis. A recuperação não é só física, é humana. Estamos a trabalhar para que ninguém fique sozinho, e apelo a todos – instituições, empresas e cidadãos – que continuem a ajudar e a cuidar uns dos outros”, concluiu.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.




