Nuno Lobeiro está do outro lado do mundo, mas a sua cabeça está em Portugal. Enfermeiro de profissão, trabalha numa unidade hospitalar da Arábia Saudita que presta apoio às bases aéreas do reino — algumas delas já alvo de ataques. Com a esposa e os dois filhos e um terceiro quase a nascer em Portugal e um voo cancelado de um momento para o outro, este alpiarcense vive suspenso entre o dever e a saudade, numa região onde a tensão cresce a cada hora que passa.
“A minha situação neste momento está estável”, garante, com a serenidade de quem aprendeu a gerir a ansiedade no silêncio dos corredores do hospital. Mas a calma é relativa. Pelos corredores ouvem-se “murmurinhos” alimentados pela incerteza de uma possível escalada do conflito e pela diversificação dos ataques. Alguns países já organizaram voos de repatriamento. Portugal, por enquanto, ainda não tem data nem detalhes concretos — apenas a confirmação de que, a existir, os custos terão de ser suportados pelos próprios passageiros.
A maior dificuldade, conta Nuno, não tem sido a proximidade física ao conflito, mas a batalha diária contra a desinformação. “Diariamente somos assolados com dezenas de vídeos e links de ataques, alguns deles já com anos, outros gerados por inteligência artificial.” Filtrar o que é real do que é manipulado tornou-se, ele próprio reconhece, um exercício de sobrevivência emocional.
A situação complicou-se ainda mais quando, a poucas horas de fazer o check-in para o voo que o traria a casa a 6 de março, recebeu uma notificação a informar que todos os voos estavam cancelados “até novas informações”. “Estive horas a fio a tentar contactar a linha de apoio, sem sucesso”, recorda. No grupo de portugueses na Arábia Saudita, fala-se em bilhetes a rondar os cinco a seis mil euros — um valor que o aproxima da realidade já relatada por outros compatriotas retidos noutras partes da Ásia.
O canal com a embaixada portuguesa tem estado ativo, mas as respostas demoram a chegar e, quando chegam, são ainda vagas. Numa primeira fase, foi transmitido aos portugueses no país que não haveria voos de repatriamento. Agora fala-se nessa possibilidade, mas sem datas nem garantias.
E enquanto espera, Nuno carrega em silêncio o peso de estar longe num dos momentos mais importantes da sua vida. Tem um filho quase a nascer. Tinha um voo marcado. “Emocionalmente estou completamente destruído, embora não o possa transmitir a ninguém”, confessa. Em redor, há colegas e conhecidos que lhe pedem tranquilidade, e ele lá vai respondendo com força que, admite, tem de ir buscar fundo. “Somos portugueses, vivemos de esperança, raça e resiliência.”



