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Coruche faz justiça à paixão de Gonçalo Ribeiro Telles pelo território

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Coruche homenageou este sábado o arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, perpetuando o seu nome na antiga Avenida do Sorraia, agora designada Avenida Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, numa cerimónia marcada pela emoção, pela evocação da ligação do homenageado à vila e por múltiplos apelos à valorização da paisagem e do ordenamento do território.

O descerramento da placa toponímica antecedeu, no Museu Municipal de Coruche, a cerimónia de entrega do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem 2025 à arquiteta paisagista Margarida Cancela de Abreu, também ela com ligações à vila de Coruche.

A homenagem reuniu familiares, autarcas, arquitetos paisagistas, académicos e amigos do homenageado, numa tarde em que Coruche foi repetidamente evocada como “segunda casa” de Gonçalo Ribeiro Telles.

Miguel Ribeiro Telles, filho do homenageado, afirmou ao NS que a atribuição do nome do pai a uma das principais artérias da vila representa “um grande orgulho” para toda a família.

“O meu pai tinha uma grande paixão por Coruche. Sentia aqui uma raiz familiar muito forte que vem dos meus antepassados”, afirmou, acrescentando que a homenagem ganha ainda maior significado por coincidir com a realização do prémio em Coruche e pela distinção atribuída a Margarida Cancela de Abreu, também ligada ao concelho.

Durante a cerimónia no Museu Municipal, Miguel Ribeiro Telles recordou que o pai “teve raízes profundas com Coruche” e que a vila era para ele “um local especial”, onde encontrava “as raízes da portugalidade” e “a comunhão entre a cidade e o campo”.

“Era também um local onde ele se refugiava, onde passava horas na sua biblioteca”, acrescentou, lembrando a forte ligação afetiva da família a Coruche.

O filho do arquiteto revelou ainda que a família mantém a intenção de doar a biblioteca pessoal de Gonçalo Ribeiro Telles ao concelho, embora admita a complexidade do processo.

“A nossa vontade presumida é que o meu pai gostava que a biblioteca dele ficasse em Coruche”, disse, explicando que estão em causa “muitos livros, alguns muito antigos”, que poderiam “enriquecer a vila de Coruche culturalmente de uma forma significativa”.

Segundo Miguel Ribeiro Telles, decorrem contactos entre a família, a Câmara Municipal de Coruche e a Universidade de Évora para encontrar uma solução que permita acolher o espólio, preferencialmente no centro histórico da vila.

Na cerimónia, o presidente da Câmara Municipal de Coruche, Nuno Azevedo, sublinhou o simbolismo da homenagem e destacou a profunda relação de Gonçalo Ribeiro Telles com o território.

“Ao atribuir o nome de Gonçalo Ribeiro Telles a uma artéria desta vila, o município inscreve de forma permanente no espaço público a memória de um homem cuja vida, pensamento e obra marcaram profundamente Portugal, mas também Coruche”, afirmou.

O autarca considerou Gonçalo Ribeiro Telles “muito mais do que um reconhecido arquiteto paisagista”, descrevendo-o como “um visionário” que defendia “a paisagem como património coletivo, como bem comum e como condição essencial à qualidade de vida”.

Nuno Azevedo confirmou ainda o empenho do município em assegurar a instalação do espólio do arquiteto em Coruche. “Pretendemos que seja um espaço de preservação, estudo e inspiração para as gerações presentes e futuras”, afirmou.

A tarde prosseguiu com a entrega do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem 2025 à arquiteta paisagista Margarida Cancela de Abreu, distinguida pelo percurso desenvolvido nas áreas do ambiente, ordenamento do território e arquitetura paisagista.

Na apresentação da homenageada, Manuela Raposo Magalhães destacou qualidades como “generosidade, competência, rigor, persistência, uma energia fora do comum, espírito de missão e dedicação à arquitetura paisagista”.

A académica recordou ainda o percurso de Margarida Cancela de Abreu na Universidade de Évora, na Comissão de Coordenação Regional do Alentejo e na Associação Portuguesa de Arquitetos Paisagistas, salientando a sua intervenção na defesa dos valores ecológicos e do interesse público.

Ao receber o prémio, Margarida Cancela de Abreu assumiu a distinção como “uma honra” e aproveitou a ocasião para refletir sobre o legado de Gonçalo Ribeiro Telles e o estado do território em Portugal.

“Se consegui ver mais longe foi porque me apoiei nos ombros de gigantes”, afirmou, citando o filósofo Bernardo de Chartres para evocar os mestres que marcaram a arquitetura paisagista portuguesa.

A arquiteta paisagista alertou para aquilo que considera ser “uma persistência de falta de cultura ambiental e de ordenamento do território”, criticando “o alheamento e ignorância dos decisores” e “o desrespeito pelo interesse público”.

“Esta persistência torna-se criminosa quando envolve recorrentemente perda de vidas humanas, seja em incêndios rurais, seja em inundações”, afirmou.

Ao longo das várias intervenções, Gonçalo Ribeiro Telles foi recordado como uma figura determinante do pensamento ambiental em Portugal, profundamente ligada a Coruche, ao montado, ao rio Sorraia e à defesa da paisagem enquanto património coletivo e visão de futuro.

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