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Cineclube de Santarém: 70 anos a fazer do cinema um lugar de encontro 

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O Cineclube de Santarém nasceu de uma paixão antiga pelo cinema e transformou-se, ao longo das décadas, num espaço de resistência cultural, de formação de públicos e de encontro entre gerações. Rita Correia, atual presidente do Cineclube de Santarém, e o realizador Pedro Canavilha, que também integra a direção, estiveram à conversa com o NS para dar a conhecer o trabalho de uma das associações em atividade mais antigas de Santarém, no ano em que celebra 70 anos de vida. 

A história começa no Círculo Cultural Scalabitano, onde se faziam sessões de cinema já nos anos 30 e 40, ainda de forma informal. Rita Correia explicou que o cineclube ganhou autonomia e passou a existir formalmente em 1956, assinalando agora 70 anos de existência documental. A dirigente sublinhou também que a reativação do cineclube exigiu um trabalho paciente de arquivo e de recuperação da memória, para não se perder o percurso construído pelas gerações anteriores. 

Esse trabalho foi decisivo porque, como referiu, houve um período de interrupção de atividade no final dos anos 80 e inícios dos 90, ligado às mudanças no consumo de cinema e ao aparecimento do vídeo e das salas multiplex. Rita Correia resumiu essa viragem lembrando que os cineclubes deixaram de ser apenas “um ato de resistência” para passarem a competir com uma nova lógica de consumo audiovisual. A reativação, já nos anos 2000, foi feita com a preocupação de preservar a identidade histórica do cineclube e não criar apenas uma estrutura nova sem ligação ao passado. 

Na conversa, os dois responsáveis insistem que o cineclube não é apenas um lugar onde se passam filmes, mas um espaço de comunidade. Pedro Canavilhas explicou que a matriz dos cineclubes sempre foi a da partilha cultural, da discussão e da ligação do cinema a outras artes e ao pensamento crítico. Rita Correia acrescentou que, hoje, em muitas cidades médias e capitais de distrito sem salas comerciais, os cineclubes acabam por ser o principal acesso ao cinema para as populações. 

Essa dimensão social é reforçada pela programação pensada para vários públicos, desde a sessão semanal aos ciclos para escolas e ao cinema ao ar livre no verão. Rita Correia defendeu que esta presença regular cria hábitos e aproxima o público de obras que, de outro modo, não chegariam às comunidades. Para ela, o cineclube cumpre uma função pública evidente: “os cineclubes têm regressado precisamente porque estão a fazer um serviço público”. 

Num país onde várias salas fecharam, a direção vê os cineclubes como uma resposta cultural e cívica importante. Rita Correia nota que o caso de Santarém é exemplar, porque a cidade viveu períodos longos sem acesso a cinema, o que reforçou a necessidade de uma oferta alternativa e regular. Pedro Canavilhas acrescentou que a boa programação e o boca a boca podem continuar a atrair público, desde que haja continuidade e qualidade. 

O futuro passa, sobretudo, por manter e reforçar essa ligação às comunidades, sem perder a identidade associativa. Rita Correia e Pedro Canavilhas falam ainda numa aposta maior na divulgação, na captação de novos públicos e na possibilidade de voltar a ganhar espaço com a reabilitação do antigo Rosa Damasceno, embora admitam que isso será um processo complexo. Para já, a prioridade é consolidar o que existe, com meios limitados, mas com um forte sentido de missão cultural. 

Festival Internacional de Cinema de Santarém é um dos mais antigos do país 

O festival nasceu antes da atual direção, pela mão de Fernando Duarte e Manuel Alves Castela, figuras ligadas ao cineclube. Rita Correia contou que a ideia surgiu nos anos 70 como um festival de cinema com temática agrícola, rural e ambiental, uma escolha que serviu também para contornar a censura. A primeira edição realizou-se em 1971 e reuniu filmes de vários países, numa estratégia que permitia trazer para Santarém obras que, de outra forma, dificilmente passariam em circuito regular. 

Rita Correia explicou o raciocínio original com uma frase que ficou quase como síntese histórica: quando lhe perguntaram por que faria um festival sobre agricultura já que não percebia nada sobre a temática, Fernando Duarte respondeu “A PIDE também não”. A leitura é clara: a temática era também uma forma inteligente de dar enquadramento oficial a uma programação mais livre e diversa. 

A reativação do festival foi um processo demorado, feito em paralelo com a consolidação do cineclube. Segundo Rita Correia, foi necessário estudar o território, procurar apoio, conhecer outros festivais e construir um projeto que tivesse viabilidade institucional e financeira. A nova vida do festival arrancou em 2023 e, desde então, a audiência tem crescido de edição para edição. 

Hoje, o festival afirma-se como um espaço de encontro entre cinema e território, com secções competitivas, sessões paralelas, debates e programação escolar. Este ano, a duração aumenta de cinco para sete dias, precisamente para abrir mais espaço às escolas e aprofundar o trabalho educativo. Rita Correia destaca ainda que o festival já atrai perto de 3000 espectadores, o que confirma a sua dimensão crescente e a necessidade de pensar novos espaços dentro da cidade. 

Quanto ao futuro do festival, os responsáveis admitem que o crescimento terá de ser qualitativo e não apenas quantitativo. Rita Correia explica que a sala principal tem 170 lugares e que já não há muito mais margem para aumentar o número de espectadores, pelo que a aposta será ocupar outros espaços e, eventualmente, criar sessões em simultâneo. Uma das ideias mais fortes é a criação de uma secção de indústria, acompanhando o modelo de outros festivais, para juntar realizadores, produtores e parceiros. 

Há também a expectativa de que a recuperação do Rosa Damasceno possa, no futuro, abrir novas possibilidades para o cineclube e para o festival. Pedro Canavilhas e Rita Correia falam desse espaço como uma peça central do imaginário cultural da cidade, embora reconheçam que a obra será exigente e lenta. Ainda assim, a direção olha para a próxima edição com ambição, mas sem perder de vista a sustentabilidade: crescer, sim, mas sem quebrar o vínculo à cidade, às escolas e à comunidade cinéfila. 

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