Anúncio 0

Calor extremo seca solos no Vale do Tejo e Sorraia, mas tomate, melão e vinha mantêm boas perspetivas

Por 

Foto por: Freepik
Anúncio 1

Temperaturas que chegaram aos 42,8 graus em Coruche e aos 42,4 graus em Santarém, precipitação praticamente inexistente, menos água no solo e uma redução do caudal do Tejo marcaram o mês de julho na agricultura da Lezíria do Tejo e do Baixo Sorraia. Apesar do calor extremo, o balanço não é totalmente negativo e culturas com forte peso económico na região, como o tomate para indústria, a vinha e o melão, chegam a agosto com perspetivas favoráveis.

As conclusões constam do Relatório do Estado das Culturas e Previsão de Colheitas relativo a julho de 2026, elaborado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR LVT), que acompanha mensalmente a evolução das principais culturas, áreas, rendimentos e produções agrícolas.

O calor foi particularmente intenso na primeira semana de julho. Segundo os dados meteorológicos apresentados no documento, a estação de Santarém registou uma temperatura máxima de 42,4 graus no dia 3, enquanto em Coruche os termómetros chegaram aos 42,8 graus no dia 2. A temperatura máxima média mensal atingiu 33,1 graus em Santarém, quando o valor normal para a época é de 30,8 graus, e 33,6 graus em Coruche, face a uma normal de 31,6 graus.

Também praticamente não choveu. Em Santarém foram contabilizados apenas 0,4 milímetros de precipitação durante todo o mês e em Coruche 0,3 milímetros. Os valores normais para julho são, respetivamente, 3,3 e 4,3 milímetros.

O relatório é taxativo quanto às condições sentidas na região: “A precipitação foi praticamente nula”. O tempo quente e seco fez diminuir o teor de água no solo em toda a Lezíria do Tejo e Baixo Sorraia, com sinais mais preocupantes em alguns concelhos.

Santarém, Almeirim e Benavente apresentavam já áreas com níveis muito reduzidos de água no solo, enquanto em Azambuja foi identificada uma zona classificada no “ponto de emurchecimento permanente”. Coruche e Benavente conservavam, contudo, áreas mais expressivas com maior disponibilidade de água no solo do que outros concelhos da região.

Tejo perde caudal e reservas subterrâneas estão piores a sul do rio

A situação da água é um dos principais sinais de alerta deixados pelo relatório. As reservas superficiais continuavam acima do normal para a época, mas diminuíram relativamente ao mês anterior.

A CCDR LVT assinala ainda que “também se verificou uma diminuição do caudal do Rio Tejo”. Quanto às águas subterrâneas, os níveis permaneciam acima do normal na margem norte do Tejo, mas encontravam se abaixo do normal na margem sul. Apesar desta evolução, durante julho continuou a existir água suficiente para as necessidades das culturas e para o abeberamento dos animais.

O calor obrigou, contudo, os agricultores a aumentar as dotações de rega em praticamente todas as culturas de regadio. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão de algumas pragas.

Vinhas sofreram com escaldão, mas vindima promete mais uvas

A vinha apresenta uma das situações mais contrastantes da campanha agrícola. O calor extremo provocou danos, sobretudo na primeira semana de julho, mas as previsões globais para a vindima continuam positivas.

Nas vinhas para vinho, os dias 2 e 3 de julho provocaram episódios de escaldão. A casta Moscatel foi a mais atingida, com o relatório a apontar para “perdas de produção significativas na maioria das parcelas”. Nas restantes castas, os danos foram considerados pontuais e sem grande impacto na produção global.

Ainda assim, as vinhas da Lezíria do Tejo e Baixo Sorraia estavam adiantadas no ciclo vegetativo e encontravam se, na sua maioria, já em maturação no final de julho.

A vindima estava prevista começar logo na primeira semana de agosto, com a casta Fernão Pires, e o relatório mantém “a perspetiva de um aumento significativo de produtividade comparativamente ao ano anterior”, campanha em que a produção ficou abaixo de um ano médio.

Também nas uvas de mesa se espera uma produtividade superior à do ano passado, graças à boa quantidade de cachos. As variedades mais tardias foram, porém, mais afetadas pelo calor extremo, enquanto as mais precoces começaram a ser colhidas em meados de julho.

Tomate para indústria entra em força nas fábricas

Outra das culturas determinantes para a economia agrícola do Vale do Tejo é o tomate para indústria. A campanha arrancou ainda durante a última semana de julho, embora com pequenas quantidades e entregas limitadas a algumas unidades industriais.

A intensificação da colheita estava prevista para a primeira semana de agosto, altura em que todas as unidades industriais deveriam estar já a receber tomate.

Nos primeiros campos colhidos, a avaliação era positiva. A CCDR LVT refere que “a expectativa era boa, prevendo-se alcançar valores semelhantes ou ligeiramente superiores ao ano anterior”. A produção apresentava uma qualidade considerada razoável ao nível da cor e do grau brix, um dos parâmetros utilizados na avaliação do tomate destinado à transformação industrial. Durante julho não foram registadas limitações de água para rega.

O calor deixou, ainda assim, marcas. Nas searas mais adiantadas registaram se frutos com escaldão solar e, nas plantações mais tardias, as temperaturas extremas afetaram o vingamento, situação que poderá vir a refletir se na produtividade final.

Melão com mais produção e melhor qualidade

As notícias são igualmente positivas para o melão da Lezíria e do Baixo Sorraia. As primeiras colheitas arrancaram durante a primeira metade de julho e os campos apresentavam um equilíbrio favorável entre quantidade e calibre.

A previsão aponta para uma produtividade superior à de 2025, que tinha sido um ano de baixa produção. Mais relevante ainda para a comercialização, a CCDR LVT considera que “a qualidade dos frutos era elevada, melhor do que no ano anterior”, destacando a boa aparência, o grau brix, a textura e a cor da polpa.

Nem todos os campos deverão, porém, obter o mesmo resultado. Nas plantações mais tardias, o calor extremo coincidiu com a floração e início do vingamento dos frutos e poderá provocar uma redução da produtividade. O relatório volta aqui a chamar a atenção para a água, referindo que, apesar de não terem existido limitações durante julho, era já visível a diminuição do caudal do Tejo e o respetivo efeito nos lençóis freáticos.

Ameixeiras e pessegueiros recuperam de um mau ano

As ameixas e os pêssegos apresentam igualmente perspetivas bastante mais favoráveis do que em 2025.

Durante julho foram realizadas colheitas na Lezíria e Baixo Sorraia, tendo ficado concluída a campanha de algumas variedades precoces. As variedades tardias continuavam em maturação para serem colhidas durante agosto e, nalguns casos, setembro.

O relatório assinala uma boa qualidade dos frutos e estima “um aumento significativo da produtividade média comparativamente ao ano anterior”, depois de 2025 ter sido um ano de baixa produção.

Cheias deixam marcas profundas nos amendoais

Se o calor dominou julho, as consequências das cheias ocorridas anteriormente continuam também a fazer sentir se nos campos.

Nos amendoais da Lezíria do Tejo e Baixo Sorraia, os pomares não afetados pelas cheias apresentavam boa carga de frutos e deverão produzir bastante mais do que no ano anterior. Em sentido oposto, os terrenos que permaneceram encharcados durante períodos prolongados apresentam produções muito reduzidas.

A situação é particularmente grave em algumas explorações. O documento refere que, nos pomares inundados, “muitas árvores estão a morrer e irá haver arranque, não se perspetivando replantação”. Ainda assim, considerando o conjunto da região, a produtividade média deverá ficar ligeiramente acima da registada no ano passado.

Olival de sequeiro deverá produzir menos

No olival, as perspetivas dependem do sistema de produção. Nos olivais de sequeiro é esperada uma boa produção, embora abaixo da alcançada no ano anterior. Nos olivais de regadio, a previsão aponta para uma produção semelhante à de 2025. Ainda é cedo, segundo a CCDR LVT, para avaliar a qualidade final da azeitona.

As temperaturas elevadas provocaram alguma queda de frutos nos olivais de sequeiro, enquanto nas explorações de regadio o reforço da água permitiu reduzir os efeitos do calor e manter uma evolução normal dos frutos.

Arroz evolui normalmente, mas produtividade ainda é incógnita

Nos arrozais da Lezíria do Tejo e Baixo Sorraia, uma das culturas mais características das zonas ribeirinhas, o calor teve até um efeito favorável no desenvolvimento vegetativo durante julho.

Os campos encontravam se em diferentes fases devido às datas de sementeira e às variedades utilizadas. Os mais adiantados estavam entre o início da floração e a formação do grão leitoso, enquanto os mais atrasados permaneciam no início do afilhamento.

A disponibilidade de água foi, em geral, suficiente, embora tenham sido identificadas limitações pontuais. A CCDR LVT considera ainda prematuro antecipar a produtividade ou a qualidade da campanha, mas refere que a cultura estava a evoluir “dentro da normalidade”.

No milho, também não foram registadas limitações generalizadas de água. Contudo, nos campos que estavam em plena floração durante os dias de maior calor foram observadas espigas pequenas e com poucos grãos.

Grão de bico poderá produzir menos

Já no grão de bico, cuja produção se concentra sobretudo na Lezíria do Tejo, o cenário é menos favorável. A colheita das searas mais adiantadas estava prevista para agosto, mas os problemas registados durante a emergência e a floração levam a CCDR LVT a antecipar uma produtividade “um pouco menor do que no ano anterior”.

No girassol, pelo contrário, a perspetiva é de uma campanha normal, com produtividade semelhante à registada em 2025.

O retrato de julho mostra, assim, uma agricultura regional a entrar na fase decisiva das colheitas depois de um mês de extremos. O calor e a falta de chuva aumentaram as necessidades de rega e reduziram a água disponível nos solos, ao mesmo tempo que o caudal do Tejo começou a diminuir. Apesar destes sinais de alerta, várias das principais culturas da Lezíria do Tejo e do Baixo Sorraia chegam a agosto com melhores perspetivas do que há um ano, nomeadamente a vinha, o tomate para indústria, o melão, a ameixa e o pêssego.

Por 

Anúncio 4
Anúncio 6
Anúncio 8

Conteúdo relacionado

Partilhar notícia

Partilhe através das redes sociais:

ou copie o link:

[current_url]