Em entrevista ao Notícias do Sorraia, no gabinete do comandante, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Santarém, Rui Carvalho fez o retrato de uma corporação que assinala 155 anos de história em plena pressão operacional e financeira. A conversa decorreu num espaço carregado de simbolismo, num momento em que a instituição soma décadas de serviço à população e enfrenta, ao mesmo tempo, desafios que se multiplicam no terreno, na gestão e no recrutamento. Entre o balanço da atividade diária, a necessidade constante de investimento e o futuro do voluntariado, o comandante deixou claro que os bombeiros vivem hoje um tempo de grande exigência, marcado por um ritmo de trabalho que não dá tréguas.
“Tem sido todos os dias um trabalho muito, muito, muito enorme”, afirmou Rui Carvalho, sublinhando o esforço necessário para manter o voluntariado ativo e garantir resposta às solicitações que chegam à corporação. Para o comandante, a missão dos bombeiros tem vindo a intensificar-se de forma significativa, obrigando a uma organização rigorosa e a uma gestão apertada dos meios disponíveis. O retrato que desenha é o de uma estrutura permanentemente em movimento, com equipas a sair para ocorrências a toda a hora e com um nível de exigência que obriga a manter capacidade de resposta em permanência. A realidade operacional, explicou, já não é comparável à de anos anteriores, porque a pressão cresceu de forma clara e contínua.
Outro dos temas em destaque foi a carga operacional da corporação, que cresceu de forma acentuada nos últimos anos. “Quando tomamos esta posição de encontrar um caminho certo para o Corpo de Bombeiros, fazíamos duas mil ocorrências. Em 2025 acabámos com 6600 ocorrências”, referiu, acrescentando que o início de 2026 mantém a mesma tendência de crescimento. O comandante fez questão de mostrar que os números falam por si e que a dimensão do serviço prestado hoje pela corporação está muito acima do que era habitual há poucos anos. “A nossa média diária de ocorrências está entre as 22 e as 28 ocorrências diárias”, afirmou, frisando que este volume obriga a uma resposta praticamente permanente. No seu entender, esta escalada do número de saídas não é apenas um dado estatístico; é a expressão concreta de um quartel sob pressão, com equipas que têm de se reorganizar todos os dias para dar resposta a tudo o que surge.
Rui Carvalho explicou ainda que os Bombeiros Voluntários de Santarém estão no centro de uma vasta área de intervenção, o que aumenta a pressão sobre os meios e sobre os operacionais. “Nós corremos a todo o lado”, disse, referindo intervenções em concelhos vizinhos como Alpiarça, Almeirim, Cartaxo, Salvaterra de Magos e Rio Maior. Na sua leitura, essa centralidade transforma Santarém numa peça-chave do socorro regional. O comandante descreveu uma lógica de triangulação entre corporações e meios, em que a localização geográfica do quartel faz com que seja frequentemente chamado a responder fora do concelho. Isso tem impacto direto na disponibilidade das ambulâncias e dos operacionais, porque cada saída repercute-se na capacidade de resposta global da corporação. A extensão territorial da intervenção é, por isso, um dos fatores que mais pesam na rotina diária.
A conversa passou igualmente pela questão dos tempos de resposta e da forma como são contabilizados. Rui Carvalho rejeitou leituras simplistas sobre os números que chegam ao exterior. “A nossa resposta começa no momento que nós recebemos a nossa chamada”, afirmou, explicando que a saída da viatura ocorre normalmente em um ou dois minutos. “Nós não temos perda de tempo”, garantiu, acrescentando que o problema, muitas vezes, está na distância e nas condições do terreno, e não na prontidão do quartel. Para o comandante, em situações de emergência, cada minuto parece mais longo para quem espera por socorro, mas isso não significa necessariamente falha operacional. A leitura que faz é a de que, em zonas extensas e com localidades dispersas, a distância continua a ser um fator determinante, por mais eficiente que seja a mobilização dos meios.
Rui Carvalho insistiu que o trabalho dos bombeiros deve ser entendido a partir do momento em que a chamada entra na central e não apenas do tempo que mede a resposta global de todo o sistema. A sua crítica não aponta apenas ao modo como os tempos são apresentados, mas também à forma como a realidade do terreno nem sempre é traduzida com fidelidade nos indicadores públicos. No seu discurso, percebe-se a preocupação em distinguir entre a rapidez com que os bombeiros saem do quartel e o tempo que decorre até à chegada à ocorrência, sobretudo quando as distâncias são longas, o endereço é impreciso ou a situação ocorre em zonas mais isoladas. É nesse contexto que a corporação tenta fazer tudo o que está ao seu alcance, sabendo que o primeiro minuto é decisivo para quem está do outro lado da chamada.
Rui Carvalho falou ainda da dificuldade em manter a corporação financeiramente equilibrada. “Os apoios que nós recebemos de terceiros paga quatro ordenados e nada mais”, disse, sublinhando que a gestão interna tem de ser muito rigorosa para garantir a sustentabilidade da associação. A frase resume de forma crua a fragilidade financeira com que os bombeiros têm de lidar. A corporação necessita de manter veículos, combustível, equipamentos, formação, instalações e recursos humanos, tudo isto num quadro de despesas permanentes e de receitas muito limitadas. Para o comandante, só uma gestão extremamente controlada permite manter o equilíbrio, evitar dívidas e continuar a responder às necessidades sem comprometer a operação.
Apesar das limitações, Rui Carvalho assegurou que a casa se mantém estável. “Nós não vemos nada a ninguém”, afirmou, referindo que a corporação trabalha sem dívidas e com controlo apertado das despesas. O comandante sublinhou que a disciplina financeira é uma prioridade e que a associação não pode avançar para compras ou compromissos sem garantir, previamente, a respetiva sustentabilidade. Essa prudência, disse, é essencial para que a corporação possa continuar a investir quando é necessário e responder a situações inesperadas sem colocar em causa a sua estabilidade. O objetivo é simples: não deixar contas por pagar e manter a estrutura sólida, mesmo quando os recursos são escassos e os desafios são cada vez maiores.
A aposta no reforço dos meios foi outro dos temas centrais da conversa. Rui Carvalho revelou que a corporação adquiriu mais uma ambulância, num investimento de cerca de 75 mil euros. “Comprámos mais uma ambulância para passar a ambulância de socorro, porque as que temos já não chegam”, explicou. A decisão surge como resposta direta ao aumento da atividade operacional e à necessidade de manter viaturas disponíveis para um volume de ocorrências que já não cabe nos meios atuais. O comandante deixou claro que esta renovação não é apenas uma questão de modernização, mas uma exigência prática para garantir que a resposta não falha quando o telefone toca. Cada nova viatura representa, por isso, uma aposta no reforço da capacidade de socorro e uma tentativa de dar algum fôlego a uma estrutura que vive no limite da sua utilização.
No plano humano, o objetivo é igualmente ambicioso. “Queremos chegar aos 100 elementos do quadro ativo”, disse, lembrando que a corporação está a terminar uma recruta e quer iniciar outra ainda este ano. Para o comandante, este crescimento é indispensável para acompanhar o aumento do serviço. A formação é contínua e, segundo explicou, exige disciplina, planeamento e compromisso por parte de todos os envolvidos. Rui Carvalho fez questão de valorizar o empenho de quem entra para a corporação e de quem nela permanece, sublinhando que só com reforço de efetivos será possível responder ao futuro com maior estabilidade. O aumento do quadro ativo não é visto apenas como uma meta numérica, mas como uma condição necessária para sustentar o nível de serviço que a população exige.
Ao olhar para o futuro, Rui Carvalho insistiu na importância de manter viva a lógica do voluntariado. “Eu quero acreditar que essa coisa do voluntariado estar a acabar é um mito”, afirmou, defendendo que a proteção civil portuguesa continua a precisar dessa componente. O comandante reconhece, no entanto, que atrair novos voluntários é hoje mais difícil do que antes, e aponta a necessidade de melhores condições como fator decisivo. “Se o apoio financeiro fosse maior, iríamos ter muitos mais interessados em entrar”, disse, apontando a valorização das condições como elemento central para o reforço das corporações. Na sua perspetiva, o problema não está apenas na disponibilidade das pessoas, mas também na capacidade das instituições em oferecer estruturas suficientemente atrativas, organizadas e sustentáveis.
A conversa passou ainda por uma reflexão mais ampla sobre o modelo de organização do setor. Rui Carvalho defende que a proteção civil e os bombeiros precisam de maior articulação e de estruturas mais unificadas, capazes de reduzir assimetrias e de melhorar a coordenação. Na sua visão, o país deve olhar para o socorro com maior coerência, reconhecendo o papel dos bombeiros no terreno e valorizando quem está na linha da frente. O comandante considera que muitas das fragilidades atuais resultam de um modelo disperso, onde as responsabilidades se multiplicam, mas a representação de quem trabalha no terreno nem sempre acompanha essa complexidade. Para ele, a resposta ao futuro exige mais do que discursos: exige meios, organização, investimento e reconhecimento.
No final da conversa, ficou a imagem de uma corporação que vive entre a herança de 155 anos e a urgência de responder a um presente cada vez mais exigente. Entre formação, investimento, recrutamento e socorro, Rui Carvalho resume o momento com uma ideia simples: há muito trabalho a fazer e pouco tempo a perder. No quartel dos Bombeiros Voluntários de Santarém, essa frase traduz bem o espírito de uma instituição que continua a servir a população com a mesma determinação de sempre, mas agora perante desafios maiores, mais complexos e mais constantes. A história da corporação é longa, mas o comando olha em frente, com a noção clara de que o futuro dependerá da capacidade de manter o voluntariado vivo, os meios operacionais reforçados e a confiança da população intacta.





