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Bombeiros Voluntários de Santarém celebram 155 anos com memória, homenagem e alertas sobre o futuro

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A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém assinala este ano 155 anos de existência com um programa comemorativo que cruza memória histórica, homenagem aos bombeiros e reflexão sobre os desafios do presente e do futuro. As celebrações, que decorrem ao longo de vários meses, culminam na cerimónia oficial marcada para 30 de outubro, data do aniversário da corporação, mas arrancaram já com iniciativas que procuram dar maior visibilidade ao percurso de uma instituição profundamente ligada à cidade e ao concelho.

Em entrevista ao Notícias do Sorraia, o presidente da associação, Diamantino Duarte, explicou que a direção quis assinalar a data de forma mais ampla do que o habitual, depois de os 150 anos terem sido comemorados em contexto de pandemia, o que impediu a realização de uma celebração à altura da importância da efeméride. Desta vez, a opção foi avançar com um conjunto mais alargado de iniciativas, com momentos públicos e simbólicos ao longo do ano, reservando para o dia 30 de outubro a cerimónia oficial com convidados de honra.

“Quisemos começar mais cedo porque, quando fizemos 150 anos, estávamos ainda em pandemia e isso não nos permitiu fazer a celebração que gostaríamos”, explicou Diamantino Duarte. O presidente acrescentou que a intenção foi, desta vez, dar um significado especial às comemorações. “Temos feito sempre as celebrações de aniversário de forma oficial e pública apenas de cinco em cinco anos, e por isso este ano optámos por um programa mais alargado”, referiu.

A programação foi pensada para valorizar não apenas a história da corporação, mas também o papel de todos os que, ao longo de mais de um século e meio, serviram a instituição e a população. Um dos momentos centrais será o lançamento de um livro dedicado à vida da associação, uma obra que, segundo Diamantino Duarte, vai muito além de uma simples publicação comemorativa. “Não queríamos fazer um livro normal sobre a vida dos bombeiros. Queríamos um documento que associasse o porquê do nascimento da associação, a forma como ela foi evoluindo e a sua ligação à vivência da cidade”, afirmou.

O presidente sublinhou que a obra resulta de um trabalho exigente, com recurso a cartografia, fotografias, documentos antigos e notícias publicadas na imprensa nacional e local, e que permitiu recuperar informação que poderia perder-se. “É um livro extremamente agradável e acho que vai marcar”, disse, acrescentando que a investigação obrigou a descobrir documentação até então dispersa ou desconhecida. “Foi um trabalho que nos obrigou a mexer em tudo, a digitalizar documentos que, de outra forma, se podiam perder”, afirmou.

Mais do que narrar a vida interna da corporação, o livro procura mostrar o contexto social e urbano em que os bombeiros foram surgindo e se foram deslocando ao longo dos anos, acompanhando as transformações da cidade, as mudanças políticas e o desenvolvimento do próprio concelho. “Queríamos saber como é que a associação nasceu, o que é que aconteceu ao longo dos anos e como foi crescendo em paralelo com a cidade”, explicou.

As comemorações incluem também uma homenagem pública às pessoas que passaram pela instituição e que, ao longo de 155 anos, deram o seu contributo para o serviço de socorro. Segundo o presidente, fazia todo o sentido separar este momento do programa oficial do aniversário, para que o lançamento do livro e o tributo às figuras históricas tivessem maior impacto e não ficassem diluídos na cerimónia principal. “Queríamos dar mais relevo a quem, ao longo destes 155 anos, por aqui passou e deu o seu melhor”, disse.

Outro dos eixos do programa comemorativo passa pela aproximação da corporação à cidade. Entre as atividades previstas está uma exposição e um dia de quartel aberto, durante o qual os bombeiros e as viaturas estarão disponíveis para visita da população. A ideia é reforçar a ligação entre a associação e a comunidade, mostrando de forma mais direta o trabalho desenvolvido diariamente por homens e mulheres que vivem numa lógica de prontidão permanente.

Mas a entrevista com Diamantino Duarte foi muito para além da celebração da data. Ao longo da conversa, o presidente fez um retrato detalhado da realidade atual da corporação, marcada por uma atividade intensa, pressão financeira e exigências operacionais crescentes. Os Bombeiros Voluntários de Santarém são hoje, segundo o responsável, a corporação com maior número de ocorrências de emergência pré-hospitalar na sua área de intervenção, assumindo diariamente uma parte muito significativa da resposta no concelho.

“Hoje somos o corpo de bombeiros com mais ocorrências na emergência pré-hospitalar”, afirmou Diamantino Duarte. O presidente adiantou que a corporação realiza, em média, cerca de 20 emergências médicas por dia, o que representa perto de 6000 por ano. “Fazemos, em média, 20 emergências médicas por dia. No ano passado fizemos cerca de 6000 e qualquer coisa”, referiu. Esses números, sublinhou, traduzem a confiança da população no corpo de bombeiros, mas também o peso crescente da missão que a associação tem de cumprir.

A corporação opera atualmente com várias ambulâncias de socorro em permanência e prevê reforçar ainda mais a frota, com a chegada de mais uma viatura. O presidente explicou que este investimento é necessário para responder ao volume de chamadas e ao esforço diário exigido aos operacionais, num contexto em que a procura não para de crescer. “Amanhã vamos ficar com mais uma ambulância”, anunciou, lembrando, no entanto, que mais meios significam também mais encargos com pessoal, manutenção, formação e combustível.

A gestão financeira da associação foi um dos temas mais insistentes da entrevista. Diamantino Duarte descreveu uma realidade em que os custos operacionais aumentam a grande velocidade, enquanto os apoios públicos permanecem insuficientes face às necessidades reais. “Nós andamos na casa dos 1.500 a 1.600 euros por mês por bombeiro”, explicou, detalhando que esse valor inclui salários, subsídios, seguros, higiene e segurança no trabalho, medicina e fardamento. “Temos que contar com tudo isso. Temos que manter esta casa a funcionar”, afirmou.

Só em reparações de ambulâncias, contou, a corporação já terá acumulado dezenas de milhares de euros de despesa num curto espaço de tempo. “Este ano, em reparações de viaturas, já vou em 40 mil euros”, disse, referindo que uma das ambulâncias sofreu danos graves e teve de ser praticamente reconstruída. A estes valores somam-se despesas com combustíveis, seguros, fardamento, equipamentos, formação e remuneração de pessoal.

O presidente foi particularmente crítico em relação ao financiamento do Estado e ao regime de apoio aplicado às corporações de bombeiros. No caso de Santarém, explicou, existe ainda a particularidade de a área de intervenção incluir a presença de bombeiros sapadores, o que reduz os montantes atribuídos à associação. “Recebemos 7.000 e poucos euros do Orçamento Geral do Estado mensalmente”, contou, sublinhando que esse valor é insuficiente para cobrir as necessidades reais da corporação.

Diamantino Duarte apontou ainda o peso do IVA como um problema grave para as associações humanitárias. Ao contrário de outras entidades, os bombeiros acabam por suportar encargos fiscais que não conseguem deduzir na totalidade, o que agrava as dificuldades de tesouraria. “Os 85.000 euros que vou receber do Estado praticamente regressam ao Estado em IVA”, disse. E acrescentou: “As pessoas não têm a noção do que é viver numa associação humanitária de bombeiros.”

Em muitos casos, explicou, o dinheiro recebido em apoios acaba por regressar ao Estado sob a forma de impostos, deixando as associações com escassa margem para fazer face às despesas correntes. “Eu pago o mesmo IVA que qualquer cidadão paga”, referiu, dando como exemplo as faturas de combustíveis, materiais e reparações. “Se a fatura for inferior a 1.250 euros, eu pago os 23 por cento e acabou”, disse. Na prática, resumiu, a associação suporta uma parte muito significativa dos custos sem conseguir recuperar o imposto pago.

A entrevista serviu também para lançar um olhar crítico sobre a organização do socorro em Portugal. Para Diamantino Duarte, o maior problema do sistema é a instabilidade. “Este país é um país do faz de conta”, afirmou, criticando as sucessivas mudanças de modelos e estruturas. “O problema é que andamos sempre a mudar. Hoje temos uma organização, amanhã já temos outra”, lamentou. Na sua opinião, o setor precisa de regras estáveis e de uma estrutura nacional clara, capaz de garantir coerência e eficiência.

O presidente defendeu, nesse sentido, a criação de um comando nacional de bombeiros ou de uma estrutura semelhante à das forças de segurança. “Devia haver um comando nacional de bombeiros, com uma estrutura distrital e com pessoas que conhecessem isto”, afirmou. E foi ainda mais longe: “Os doutores e engenheiros que saem da universidade e nunca viram uma ambulância não podem decidir tudo sobre o terreno.” Na sua perspetiva, o país precisa de uma estrutura pensada por quem conhece a realidade operacional.

Também no que toca à emergência pré-hospitalar, o dirigente manifestou reservas quanto à criação de novos níveis intermédios entre a chamada da população e a chegada da ajuda. “Não queremos abdicar de ter contacto direto com o CODU”, afirmou, rejeitando a ideia de que mais uma central de intermediação possa melhorar a resposta. “Isso é acrescentar mais um intermediário no caminho. E isso significa perder tempo”, alertou.

Diamantino Duarte argumentou que os modelos pensados para grandes áreas urbanas não podem ser simplesmente transpostos para concelhos com outra geografia, outra dispersão populacional e outras distâncias. “Esses centros de referência são muito bonitos nas áreas metropolitanas”, disse, lembrando que o tempo de resposta em zonas como Póvoa da Isenta, Alcanede ou Vale de Santarém é muito diferente daquele que pode ser garantido em Lisboa ou no Porto. “Se for numa zona mais afastada, como é que se consegue cumprir esses tempos?”, questionou.

A entrevista revelou também a preocupação com a atração e retenção de novos bombeiros. O presidente reconheceu que o futuro da associação depende não apenas da estrutura financeira e logística, mas também da capacidade de manter homens e mulheres motivados para um trabalho exigente, mal remunerado e socialmente pouco reconhecido. “Falta tudo”, resumiu, quando confrontado com a questão da valorização da carreira.

Defendeu que os bombeiros voluntários continuam a fazer enormes sacrifícios, sobretudo no plano da formação, muitas vezes suportada pela própria associação. “Somos muito exigentes na formação da nossa rapaziada, e isso custa muito dinheiro à associação”, afirmou. Segundo explicou, as deslocações, estadias, refeições e certificações são frequentemente suportadas pela casa. “Pagamos o almoço, o jantar, o transporte e muitas vezes até a dormida”, disse, sublinhando que tudo isso representa um esforço financeiro contínuo.

O presidente admitiu ainda que é difícil encontrar pessoas disponíveis para assumir responsabilidades de direção ou integrar o corpo ativo. “Por isso é que eu estou aqui há não sei quantos anos, porque não consigo arranjar ninguém que queira vir para aqui”, confessou. E acrescentou: “Todos os anos digo que não me candidato, para ver se aparece alguém.” A sucessão continua, portanto, a ser um tema sensível, num contexto em que a complexidade da função afasta potenciais dirigentes.

Ainda assim, a mensagem de fundo deixada por Diamantino Duarte é de confiança no trabalho feito até aqui e no compromisso de quem continua diariamente ao serviço da população. Os 155 anos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém são, ao mesmo tempo, motivo de celebração e de alerta. Celebração, porque traduzem uma história longa, feita de serviço público, coragem e dedicação. Alerta, porque o futuro da corporação e do sistema de socorro depende de decisões políticas, de maior estabilidade organizativa e de um reforço efetivo dos meios humanos e financeiros.

Entre o passado que agora se celebra e os desafios que se acumulam no presente, os bombeiros de Santarém chegam aos 155 anos com uma identidade reforçada e com a mesma missão de sempre: responder quando a cidade, o concelho e a população mais precisam.

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