A Associação de Agricultores de Coruche e Vale do Sorraia assinalou o seu 50.º aniversário com um seminário comemorativo realizado na Estação Experimental António Teixeira, numa sessão que reuniu associados, entidades parceiras, representantes do setor agrícola, o presidente da Câmara Municipal de Coruche, Nuno Azevedo, e o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, Álvaro Mendonça e Moura.
O encontro, subordinado ao tema “50 anos: Evolução e Futuro”, serviu para recordar o percurso da associação, mas sobretudo para debater os desafios da agricultura no Vale do Sorraia, num momento em que o setor enfrenta pressões crescentes relacionadas com a água, os custos de produção, a escassez de mão de obra, a burocracia, as alterações climáticas e a necessidade de reforçar a valorização dos produtos agrícolas.
Na abertura da sessão, o presidente da Associação de Agricultores de Coruche e Vale do Sorraia, Pedro Barata Batista, destacou o significado de meio século de atividade ao serviço dos agricultores, afirmando que “50 anos são uma vida inteira de trabalho, serviço, dificuldades ultrapassadas, decisões tomadas em momentos difíceis, conquistas silenciosas e dedicação a uma causa maior, a agricultura”.
O dirigente lembrou os fundadores, antigos presidentes, técnicos, associados e famílias que contribuíram para a construção da associação, sublinhando que a instituição nasceu da necessidade de dar voz aos agricultores. “Tudo começou com homens e mulheres que perceberam que sozinhos os agricultores seriam sempre menos fortes, mas juntos poderiam ter voz”, afirmou.
Pedro Barata Batista defendeu que a Associação continua a fazer sentido porque a agricultura é hoje chamada a responder a exigências cada vez mais complexas. Segundo o dirigente, os agricultores são simultaneamente produtores de alimentos, gestores de território, agentes ambientais, empresários competitivos e cumpridores de obrigações administrativas crescentes. “Em muitos momentos é demasiado para quem tem uma primeira responsabilidade, produzir, gerir a sua exploração e manter viva a atividade agrícola”, referiu.
O presidente da Associação de Agricultores apontou cinco prioridades para o futuro do setor: a água, a valorização da produção, a agroindústria de proximidade, o conhecimento técnico e a renovação geracional. “Sem água não há agricultura de regadio”, afirmou, defendendo uma política “séria, técnica, responsável e de longo prazo”.
A agroindústria de proximidade foi outro dos temas centrais do seminário. Para Pedro Barata Batista, a agricultura do Vale do Sorraia só ganhará força com “indústria próxima, compradores próximos, transformação próxima e relações comerciais estáveis”, de forma a mobilizar a produção, reforçar fileiras e gerar mais valor no território.
O presidente da Câmara Municipal de Coruche, Nuno Azevedo, valorizou o papel da Associação ao longo das últimas cinco décadas e sublinhou a importância da agricultura para o concelho. “Falar deste território é inevitavelmente falar de agricultura. A agricultura não é apenas um dos principais setores da nossa economia. É parte da identidade deste território”, afirmou.
O autarca defendeu que o setor deve olhar para o futuro com capacidade de adaptação e visão estratégica, num contexto marcado pelas alterações climáticas, escassez de mão de obra, necessidade de inovação e novas oportunidades de mercado. Nuno Azevedo considerou que “talvez seja o momento de se procurar reforçar a aposta na transformação e na valorização dos nossos produtos agrícolas”.
Para o presidente da Câmara, o setor agroindustrial pode representar uma nova etapa no desenvolvimento agrícola de Coruche, ao permitir acrescentar valor à produção, criar emprego qualificado, diversificar a economia local e reforçar a competitividade das explorações. “Conseguir transformar mais próximo da origem é contribuir para um ambiente mais saudável, mas também criar mais riqueza no nosso território”, afirmou.
Nuno Azevedo não deixou de abordar os prejuízos provocados pelas intempéries dos últimos meses, que afetaram culturas, infraestruturas e rendimentos dos agricultores. O autarca garantiu que a Câmara Municipal tem acompanhado a situação “com preocupação”, mantendo se “alinhada com os agricultores e sempre do seu lado”.
O presidente da Câmara lamentou ainda que os processos de apoio aos agricultores não estejam mais adiantados, explicando que os municípios foram chamados tardiamente a intervir no processo, o que “acabou inevitavelmente por introduzir algum atraso na resposta que todos desejavam que fosse mais célere”. Ainda assim, garantiu que a autarquia continua empenhada em colaborar com todas as entidades para assegurar que os apoios chegam aos agricultores.
No encerramento, o presidente da CAP, Álvaro Mendonça e Moura, felicitou a Associação de Agricultores de Coruche e Vale do Sorraia pelos 50 anos de atividade e destacou a força do associativismo agrícola no território. O dirigente afirmou que gostaria que em todas as regiões do país existisse “a dinâmica deste associativismo”, considerando que o Vale do Sorraia ocupa um lugar próprio na agricultura nacional.
Álvaro Mendonça e Moura defendeu que os agricultores organizados têm mais capacidade para fazer ouvir a sua voz, ganhar escala, concentrar a oferta, criar valor acrescentado e melhorar a sua posição na cadeia alimentar. “Já não basta produzir bem, é fundamental organizar a produção”, afirmou, alertando que, num mercado competitivo, produzir bem pode não ser suficiente se a produção não estiver organizada.
O presidente da CAP deixou uma mensagem de confiança no futuro da agricultura portuguesa, mas também críticas à burocracia que continua a pesar sobre o setor. “A burocracia continua a ser um dos maiores custos invisíveis da agricultura portuguesa”, afirmou, defendendo que simplificar “não significa reduzir a exigência”, mas sim tornar o Estado “um parceiro e não um adversário dos produtores”.
Álvaro Mendonça e Moura apontou a água como a principal questão para a agricultura em Portugal. “A primeira questão para a agricultura em Portugal é a água”, afirmou, defendendo que o país tem condições para gerir melhor este recurso e que uma estratégia eficaz pode representar “a mais importante reforma estrutural que alguma vez se fez na agricultura em Portugal”.
O dirigente da CAP destacou ainda a mão de obra como outro desafio central, lembrando a importância da Via Verde para a captação de trabalhadores estrangeiros para a agricultura. Segundo afirmou, já foram concedidos mais de 4000 vistos ao abrigo deste mecanismo, mas o setor continua a precisar de mais trabalhadores para aumentar a produção e o rendimento.
O seminário incluiu ainda painéis sobre a evolução e o futuro da agricultura no Vale do Sorraia, bem como sobre a importância da agroindústria de proximidade, com a participação de representantes de empresas e entidades ligadas ao setor, como a Mondarroz, o Grupo Jerónimo Martins, a DACSA Atlantic e o Sugal Group.



















































