Há crianças que encontram na casa de uma ama uma resposta de proximidade, num ambiente familiar e com acompanhamento personalizado. Na Golegã, essa resposta chama-se “A Casinha Verde” e é assegurada por Vera Alves, uma das amas formadas pela Fundação Mendes Gonçalves no âmbito do projeto Cuidar em Rede. Nos Riachos, a mesma solução é desenvolvida por Andreia Serra, responsável pelo espaço “Doce Colo”.
As duas amas integram um programa criado pela Fundação Mendes Gonçalves para reforçar a oferta destinada a crianças dos zero aos três anos, uma faixa etária onde continuam a existir dificuldades no acesso a respostas de creche. A iniciativa abrange a Golegã e os concelhos de Entroncamento, Vila Nova da Barquinha, Chamusca, Torres Novas e Alcanena.
“Aumentar a taxa de cobertura” é um dos principais objetivos identificados por Vanessa Esteves, coordenadora do programa de educação da Fundação Mendes Gonçalves. A responsável explica que o projeto surgiu depois de a instituição ter identificado uma resposta insuficiente para a primeira infância no território, numa área onde a oferta de amas certificadas continua a ser reduzida.
Um percurso de formação exigente
A primeira edição do curso de qualificação contou com 48 manifestações de interesse. Depois de um processo de seleção, que incluiu entrevistas e visitas domiciliárias, 15 pessoas iniciaram a formação. No final, 11 concluíram o percurso completo e seis manifestaram vontade de avançar para a profissão.
A formação incluiu 150 horas de componente teórica e 120 horas de prática em contexto de trabalho, uma duração superior ao mínimo exigido pela Segurança Social. O objetivo foi garantir que as futuras amas não ficavam apenas com conhecimentos básicos, mas adquiriam ferramentas para acompanhar o desenvolvimento físico, emocional e social das crianças.
“Foi muito boa”, recorda Vera Alves, referindo-se à formação. A ama destaca a possibilidade de ter contactado com diferentes idades e dinâmicas em contexto de creche, uma experiência que lhe permitiu perceber como organizar o trabalho, gerir a atenção e responder às necessidades de várias crianças em simultâneo.
Os conteúdos abrangeram áreas como desenvolvimento infantil, saúde, alimentação, higiene, segurança e suporte básico de vida. Para Vera Alves, um dos aspetos mais importantes foi aprender a reconhecer sinais de alerta no desenvolvimento das crianças e saber quando deve ser chamada a atenção dos pais.
“Como estamos o dia inteiro com as crianças, acabamos por estar muitas vezes mais atentos do que os pais”, explica. A formação, acrescenta, permitiu compreender melhor os diferentes marcos do desenvolvimento e identificar situações que possam exigir acompanhamento especializado.
“O melhor dos dois mundos”
Na Golegã, Vera Alves recebe as crianças na “A Casinha Verde”, um espaço pensado para conjugar a proximidade de um ambiente doméstico com as exigências de uma resposta certificada. “Tenho o melhor dos dois mundos”, afirma, defendendo que o modelo permite garantir condições de segurança e, ao mesmo tempo, adaptar os cuidados ao ritmo e às características de cada criança.
A personalização é, para a ama, uma das principais vantagens desta resposta. Num grupo mais pequeno, torna-se possível conhecer melhor cada criança, respeitar os seus horários e acompanhar de forma mais próxima a alimentação, o sono, as brincadeiras e as diferentes fases de desenvolvimento.

O modelo exige, contudo, um processo de licenciamento e acompanhamento que Vera Alves considera pouco claro e ainda pouco conhecido. A própria teve dificuldades em obter informação sobre os procedimentos necessários junto da Segurança Social, numa altura em que a atividade de ama em regime livre ainda é uma realidade pouco comum no distrito de Santarém.
“É uma coisa nova” para muitos serviços e instituições, considera. Apesar de defender a avaliação das condições da casa e do contexto familiar, Vera Alves entende que seria importante tornar o processo mais esclarecedor e agilizar a informação destinada a quem pretende exercer a profissão.
Entre a oportunidade e os obstáculos
A Fundação Mendes Gonçalves identificou várias barreiras à entrada nesta atividade. Uma delas é a necessidade de existir uma divisão própria na habitação, condição que pode excluir pessoas interessadas que não dispõem de espaço suficiente em casa. Outra prende-se com o facto de as amas em regime livre trabalharem por conta própria, sem um salário fixo garantido.
“Não é um trabalho assim certo, como se costuma encontrar noutros sítios”, reconhece Vanessa Esteves. A incerteza associada ao rendimento, os seguros e as restantes despesas podem levar algumas candidatas a desistir, mesmo depois de concluída a formação.
Para reduzir os custos de instalação, a Fundação Mendes Gonçalves apoiou as amas com um conjunto de equipamentos no valor aproximado de 1.500 euros por casa. O apoio foi concretizado através de parcerias com o IKEA, a Farmácia da Terra e uma empresa de extintores, permitindo preparar os espaços para o acolhimento das crianças.

Outra diferença face às creches familiares prende-se com o enquadramento da chamada Creche Feliz. As amas em regime livre não estão abrangidas pela gratuitidade, o que significa que têm de cobrar uma mensalidade às famílias. Para Vanessa Esteves, esta é uma das dificuldades que condiciona a procura, sobretudo quando os pais comparam esta resposta com outras soluções gratuitas.
A técnica dos Programas Educar e Nutrir da Fundação Mendes Gonçalves defende, por isso, que é essencial explicar aos pais a diferença entre uma ama certificada e alguém que toma conta de crianças sem estar habilitado pela Segurança Social. A licença deve estar afixada à porta, cada criança deve ter seguro e a ama deve cumprir um conjunto de obrigações, incluindo a emissão de fatura e a existência de documentação relativa ao acompanhamento individual.
Uma rede para o futuro
O trabalho da Fundação Mendes Gonçalves não termina com a formação. A instituição tem promovido ações complementares em áreas como nutrição, literacia digital, diversidade, inclusão, histórias para crianças, necessidades específicas e suporte básico de vida pediátrico. Em maio, organizou também uma formação em supervisão pedagógica, em parceria com a Associação de Profissionais de Primeira Infância.
A intenção é garantir que as amas não ficam isoladas depois de iniciarem a atividade. A fundação tem acompanhado o seu trabalho, realizado visitas e procurado criar pontes com outras instituições, para que possam beneficiar de apoio e reflexão pedagógica.
Essa estratégia passou ainda pela criação de uma Rede de Primeira Infância, que reúne entidades com intervenção dos zero aos seis anos, incluindo creches, pré-escolar, agrupamentos de escolas e municípios. A rede deverá reunir trimestralmente para partilhar experiências, identificar necessidades e contribuir para a melhoria das políticas públicas na área da infância.
Na Golegã, a “A Casinha Verde” é já uma dessas respostas. Nos Riachos, o “Doce Colo” representa o mesmo esforço de proximidade. Duas casas, duas amas e um desafio comum: garantir que crescer nos primeiros anos de vida pode acontecer num espaço seguro, qualificado e próximo das famílias.




