O Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo apresentou um balanço dos primeiros três meses de atividade, destacando sinais de recuperação na resposta hospitalar, sobretudo na urgência geral, na ginecologia e obstetrícia e na maternidade, apesar de reconhecer constrangimentos significativos ao nível dos recursos humanos.
A nova administração, liderada por Nuno Luís Gonçalves Cardoso, tomou posse no final de novembro e encontrou, segundo o próprio, uma unidade em situação exigente. “Vinha atravessando períodos difíceis de alguma degradação do seu nível de serviço” e com “muitos médicos a sair” e “alguns serviços a desmobilizar”, afirmou, apontando para a necessidade urgente de reorganização e reconstrução interna.
A entrada em funções coincidiu com um período particularmente crítico, marcado pelo aumento da procura e por surtos de gripe, o que agravou a pressão sobre a urgência. “Andámos quatro ou cinco semanas com mais de 80 doentes internados no espaço físico da urgência”, referiu o presidente, explicando que foi necessário ativar várias fases do plano de contingência e mobilizar equipas para garantir resposta.
Entre as primeiras medidas, a administração conseguiu reabrir camas que estavam encerradas por falta de profissionais. “Conseguimos, no primeiro mês, reabrir as 16 camas de medicina interna”, afirmou Nuno Cardoso. A unidade de cuidados intermédios, que estava totalmente encerrada, foi também parcialmente reativada, com a abertura inicial de seis camas e, mais recentemente, oito camas diferenciadas.
Paralelamente, foi mantida a contratualização de camas no exterior, num total de 83, e reforçada a articulação com outras unidades do Serviço Nacional de Saúde. Segundo o responsável, a melhoria da resposta da urgência resulta sobretudo de alterações organizativas internas. “Os processos e a máquina a mover-se como um todo criaram maior eficiência”, afirmou, sublinhando que, fora dos períodos de maior pressão, o hospital já apresenta indicadores mais positivos.
Uma das áreas mais críticas identificadas foi a ginecologia e obstetrícia, serviço que chegou a ter cerca de 20 médicos e que, à chegada da nova administração, contava apenas com um especialista. “Era impossível ter um serviço funcional nestas condições”, admitiu.
Entretanto, foram integrados quatro novos médicos, permitindo iniciar a recuperação da atividade. “No mês de março juntaram-se quatro novos elementos ao serviço”, revelou, acrescentando que foi possível retomar o bloco operatório de ginecologia, interrompido desde o verão de 2025.
A diretora clínica hospitalar, Ana Azevedo, explicou que a estratégia passa por reconstruir o serviço de forma estruturada. “Um serviço não se deve construir pela urgência. A casa também não se constrói pelo telhado”, afirmou, sublinhando que a prioridade é reorganizar consultas, exames e atividade cirúrgica, bem como o acompanhamento das grávidas.
Relativamente à concentração da urgência de ginecologia e obstetrícia no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Nuno Cardoso garantiu que a medida não representa o fim do serviço em Vila Franca de Xira. “A nossa urgência não desapareceu, está a ser feita num local diferente”, afirmou, classificando a solução como transitória e assegurando que o objetivo é recuperar um serviço completo, com todas as valências, incluindo urgência.
Apesar das alterações, a administração garante que a maternidade continua a funcionar. “Continuam a nascer bebés em Vila Franca. O bloco de partos continua aberto”, afirmou o presidente. Ana Azevedo reforçou esta ideia com dados recentes, indicando que “terça-feira nasceram quatro bebés” e que, em fevereiro, se registaram 62 partos, um aumento significativo face aos meses anteriores.
Para minimizar o impacto da reorganização, foi criada uma consulta aberta de ginecologia e obstetrícia, disponível todos os dias. “Criámos esta consulta para permitir que o número de doentes a ir para Loures seja o menor possível”, explicou a diretora clínica, acrescentando que a deslocação a Loures se destina sobretudo a situações mais urgentes. “As pessoas vão para Loures fazer pouca coisa”, afirmou.
Também na pediatria se registam evoluções positivas. Segundo Ana Azevedo, foram integrados dois novos pediatras, permitindo reforçar a resposta. A urgência pediátrica passa agora a funcionar todos os dias entre as 09h00 e as 20h00, mantendo-se as noites referenciadas, sendo também assegurado o apoio ao bloco de partos ao longo de toda a semana.
Nos cuidados de saúde primários, Sérgio Rosário destacou o impacto da saída de médicos de família nos últimos anos, mas apontou sinais de recuperação. “Conseguimos travar a saída de especialistas”, afirmou, adiantando que está prevista a entrada de mais sete médicos de família ainda este ano.
O responsável sublinhou que a ausência de médico de família não significa falta de resposta. “Não ter médico de família não é igual a não ter proteção”, afirmou, explicando que foram criadas várias alternativas, como consultas específicas para utentes sem médico atribuído, reforço da saúde mental e da saúde oral, bem como novas dinâmicas de organização das equipas.
No acompanhamento da gravidez, garantiu que todas as utentes têm acesso a seguimento clínico. “Qualquer grávida pode requerer o seu seguimento junto de uma unidade de saúde”, afirmou, destacando a articulação entre cuidados primários e hospitalares.
Apesar das dificuldades, Nuno Cardoso considera que o caminho está a ser feito. “As coisas estão-se a fazer”, afirmou, sublinhando a necessidade de continuar o trabalho com “realismo, serenidade e sentido de responsabilidade”, reforçando que existe um projeto em curso para melhorar a resposta da ULS à população.




